terça-feira, 31 de janeiro de 2012

sábado, 28 de janeiro de 2012

Poema

Cada dia mais detesto
Se indefeso torpe nauseabundo
Cada dia mais (in)cautelosa vontade
De dispersar o escudo as armas o argumento
E tocar com mãos nuas sem sabre nem códigos
De quinhentas mil chaves
Escudo brasão e honra
Apenas com estas mãos trêmulas
Estes pés trôpegos ébrios tortos
Essa mudez tagarela essa tosse esse pigarro
Essa boca silenciosa lançada nos ventos
Esse pedido essa prece esse desânimo
Mãos duras plantadas na safra das tuas:

Em que rincão semeei o amor?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Das Companhias

E a gente aprende com alguns amigos importantes - 
no meu caso, poucos, é verdade (mas imprescindíveis) -, 
a valorizar mais ainda a solidão.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Dos Apoios

Sou um homem-trampolim: as pessoas pedem meu apoio, 
depois dão um impulso bem firme e "tcham"! Somem no espaço. A prancha ali, em convulsão.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Fábula Transformada


Na sequência, um S+7 da fábula O Lobo e O Cordeiro, de Esopo. O S+7 é criação do autor Jean Lescure, do OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentiele), e consiste em trocar todos os substantivos de um texto pelo sétimo encontrado na sequência de um dicionário.  Aqui, uma adaptação com a técnica a partir de um texto de Fedro:

O Lobo e o Cordeiro
"Ao mesmo rio vieram compelidos pela sede, o lobo e o cordeiro. O lobo estava mais acima e o cordeiro bem mais abaixo. Então o predador, incitado por sua goela maldosa, encontrou motivo de rixa: Estou a beber e tu poluis a água!
O lanoso, tímido, responde: Como posso fazer isso de que te queixas, ó lobo? De ti para meus goles é que o líquido corre.
Repelido pela força da verdade, ele replicou: Cerca de seis meses atrás falaste mal de mim.
O cordeiro retruca: Eu? Então eu sequer era nascido...
Teu pai é que me destratou!
Em seguida dilacera a presa, dando-lhe morte injusta."

Na sequência:

A Loção e a Coreografia
Apesar dos mesmos riscos que correm os segmentos comerciais da Loção e da Coreografia, bem mais abaixo de si o primeiro julga estar o segundo, para quem não se agrada de dança, mas gosta de cheirar bem. Então, a predileção da multidão, julga aquele que é por si. Incitado como uma goiva maldosa que desbasta o madeiro, o mercado de Loção encontrou um jeito de atropelar de vez o segmento de Coreografia, como um motorista que tem essa prática perversa como robe. “As pessoas usam nossos produtos como fossem uma jóia, verdadeira água-marinha!”
Como um desses tímidos e lanosos animaizinhos, o segmento da Coreografia responde:
“E como poderia eu fazer isso também de que te gabas, ó Loção? De tua seiva falsa para meus suaves golpes no vento, tudo difere, pois às almas é que embriago como odor de lis que corre”.
Repelido pela formação da poética resposta, e sem vereda de saída, a Loção replicou:
“Hoje, como desde seis meses atrás, falas ainda mal de mim?”
A Coreografia retruca: “Eu? Então eu sequer era nascido, só ensaiava longe do público...”
“Teu painel é que me destrata, com teus belos meneados e promessas de Paraísos dos sentidos!”
Em seguida dilacera a presença de toda compaixão no diálogo com a Coreografia, lançando-lhe injustos jatos de fragrância no rosto, como moscardos, e a querer perfumar sua flor já perfumada.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A MÃO PESADA

Os carinhos do vento eram rudes
para quem não o sabe.
As árvores pareciam querer rachar
de excitadas,
enquanto nós chorávamos
por quaisquer coisas partidas.
E não sabíamos às vezes vão
falarmos, mas não se fizermos:
Amor? 

Histórias do Livro dos ventos.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Altered family’s book (4)

No dia em que tiraram essa foto, Jeckson (assim mesmo sua grafia!) e Iorrana (!) estavam indo para a praia de Tambaba. Diziam que estavam treinando em casa para "arrasar" na Paraíba. Eu sou da opinião de que os homens não deveriam ficar nus na frente de mulheres nuas, principalmente depois do amor. Elas sempre são mais elegantes. Sempre. Mas meu tio não aprende que os óculos é que o atrapalham. Seus olhos são minúsculos!

domingo, 15 de janeiro de 2012

Poema Antonímico: LITÍGIO CARNAL












(A partir de Boda Espiritual, de Manuel Bandeira)

Estás em minha frente em momentos tão gastos:
De olvido meu, grande ilusão, somes vestida
— Bem vestida à rameira e rude, sob meus cascos.

Dás-me as costas e o tédio que não declinas.
Viras a face. E eu te abomino... E te recuso...
O punho cerrado contra o meu rosto... Miras...

Lanças do corpo náuseas de meus beijos defuntos.
Tu’alma dura assevera, em retidão lassa
Mais fora a rocha a alma nívea e neve juntas.

Falas língua defunta. Nada pedes, farta.
E para enervar tua discrição mais vulgar
Nego-te a mão a que desafias à tapa...

E então gritas a todo pulmão já sem ar.
Afasto de teu corpo meu corpo cansado
Ó tédio infernal, mágoa, timidez de amar...

E te odeio com um amor despedaçado.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Altered family’s book (3)

Ah, Tio Oscar queria ser Ícaro, sonhar alto. Mas como levantar voo com asas de cera, possuindo pés de chumbo? Pediu dinheiro ao banco para montar uma empresa de... lembrou-me agora, este era o vizinho dele, que saía assim todo carnaval. Tomava um porre e ficava alto. As asas apenas davam equilíbrio.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Altered family's Book (2)

Este em cima do galho é o Tio Eldo. Ele dizia que seria aviador um dia, e queria praticar. Na realidade era o extravagante da família, e nem em dia de foto para álbum de família, meu tio sabia se comportar. Depois que foi internado, não em um hospício, mas em um hospital, quando caiu de uma árvore, percebeu que não tinha mais idade para realizar seu sonho. Eu sou o menino de branco, no colo de mamãe. Virei aviador, 25 anos depois.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Altered family’s book (1)

Esse é meu pai. Deveria dizer que sinto orgulho dele pelas coisas que construiu, apesar de não saber bem se as fontes são seguras. Afinal, ninguém podia imaginar que o desossador poligonal, com lâminas triplas em aço cerrado iria ser utilizado depois, nos campos de concentração. Deveria servir para arrancar os ossos de um galináceo quase inteiros, prejudicando minimamente as carnes do animal. A história fará justiça a Papai. Não o conheci pessoalmente, mas dizem que as pessoas gostavam dele.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Das Dedicações

Atendia todos os pedidos dela. 
Uma vez pediu-me que a fizesse desistir de mim, porque só queria o seu bem. 
Como não atendi, ela me largou...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Da Contemplação

Para ele, a economia verbal reproduz o que vale a pena reter na vida: 
do valor moral, do bem material, e da sua cachacinha de fim de semana.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Dos Diálogos

Ela não cansava de criticar todas as minhas palavras frias, 
meu humor cadavérico, minhas decisões tempestivas e fatais. 
E eu era um túmulo.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Das Dores

Depois dela, 
as outras mulheres passaram a claudicar de uma perna 
e sofriam de um feio desvio do septo nasal, 
que lhes dava uma voz fanhosa.

Das Declarações

Eu necessitava de frases feitas, 
tiradas de livros de poemas, para mantê-la apaixonada por mim; 
incrível como não bastava só um "eu te amo"!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Da Dor Alheia

Todas as vezes que um urso urrar de dor na floresta, 
um cavalo relinchará na selva urbana. 
Não quer dizer que o cavalo se importe, longe de.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Dos Gostos

Não digo que não gosto disso ou daquilo, 
muita tolice minha. Seria revelar fácil o meu caráter, assim. 
Apenas gosto ou não. Não te desgosto.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Das Mortes

Em minha morte, alguns sofrerão por si. 
Que pena deles, eles sentem. 
Na morte, choram dezenas de almas boas por si sós, 
por si, não por nós.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Das Estações

Quando te amei, o mundo girava, vertiginoso, 
e era tempo das flores. À 1ª golfada, mudava de amor, 
saltava do mundo e era alérgico ao pólem.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Efeito Borboleta

Todas as vezes que ela me dizia "eu te amo", 
um vulcão explodia em um lugar qualquer, 
mas o chato é que nenhuma cinza caía nessa borboleta.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Relação

"Espera!", ela dizia 
(e eu, após meia dúzia de flores, 
elogios rasgados e promessas de amor eterno, 
ia ser o mais feliz em outro inferno!).

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