terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Primeiro Manifesto do OuLiPo (François Le Lionnais)

                                                                                   Tradução do francês de Adilson Guimarães Jardim

             Abramos um dicionário com as palavras: “Literatura Potencial”. Não vamos encontrar nada aí sobre isso. Lamentável lacuna. Gostaríamos, através das linhas que seguem, senão impor uma definição, ao menos propor algumas observações, simples aperitivos destinados a acalmar os esfomeados que esperam o prato principal: os autores que saberão escrever melhor que eu. 

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         Vocês se recordam das discussões que acompanharam a invenção da linguagem? Mistificação, fantasia pueril, deliquescência da raça e definhamento do Estado, traição da natureza, atentado contra a afetividade, crime de lesa-inspiração, de que não se acusavam (sem linguagem) a linguagem dessa época. E a criação da escritura, e a gramática, imaginavam vocês que isso se passaria sem protestos? A verdade é que a querela entre os antigos e modernos é permanente. Ela começou com Zinjanthrope (um milhão e setecentos e cinquenta mil anos) e não terminará na humanidade a menos que os mutantes que lhe sucederão assegurem essa mudança. Querela, além disso, bem mal batizada. Aquilo que se chama “os antigos” são, frequentemente, os descendentes esclerosados daqueles que, em seu tempo, foram “modernos”; e estes últimos, se eles retornam entre nós se encostam, em muitos casos, ao lado de inovadores e repudiam seus muito amorosos imitadores. A literatura potencial representa apenas um novo impulso de seiva nesse debate. 

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               Toda obra literária se constrói a partir de uma inspiração (ao menos é isso que seu autor deixa entender) que é realizada acomodando-se bem ou mal a uma série de restrições e procedimentos que penetram uns nos outros, como bonecas russas. Restrições do vocabulário e da gramática, restrições das regras do romance (divisões em capítulos etc.) ou da tragédia clássica (regra das três unidades), restrições da versificação em geral, restrições de formas fixas (como no caso do rondó ou do soneto) etc. Devemos manter as receitas conhecidas e recusar obstinadamente imaginar novas fórmulas? Os partidários do imobilismo não hesitam de responder afirmativamente. Sua convicção se apóia menos numa reflexão racional do que na força do hábito e na impressionante série de obras-primas (e, também, infelizmente, obras menos primas) que foram obtidas nas formas e segundo regras atuais. Assim deviam argumentar os adversários da invenção da linguagem, sensíveis que foram à beleza dos gritos, à expressividade dos suspiros e aos olhares nos bastidores. Deve a humanidade descansar e se contentar em expressar ideias novas com versos antiquados? Nós cremos que não. Aquilo que alguns escritores introduziram à sua maneira, com talento (ou com gênio), alguns, porém, ocasionalmente (forjadores de palavras novas), outros com predileção (contra-rimas), outros com insistência mas uma só direção (letrismo), o Ateliê de Literatura Potencial (“Ouvroir de Littérature Potentialle” – Oulipo) espera fazê-lo sistemática e cientificamente, e na necessidade de usar máquinas de processar a informação. 

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Podem-se distinguir, entre as pesquisas que o Ateliê espera realizar, duas tendências principais relacionadas respectivamente com a Análise e a Síntese. A tendência analítica trabalha com as obras do passado para pesquisar nelas possibilidades que excedem frequentemente aquilo que os autores haviam suspeitado. É, por exemplo, o caso do “cento”, que poderia, parece-me, ser revigorado por algumas considerações tiradas da teoria das cadeias de Markov. A tendência sintética é mais ambiciosa; ela constitui a vocação essencial do Oulipo. Trata-se de abrir vias desconhecidas por nossos predecessores. É, por exemplo, o caso dos Cem Mil Bilhões de Poemas ou dos haicais booleanos. Os matemáticos – mais particularmente as estruturas abstratas da matemática contemporânea – nos propõem mil direções para explorar, tanto a partir da álgebra (recursos a novas leis de composição) quanto da Topologia (considerações de vizinhança, de abertura ou fechamento de textos). Nós sonhamos também com poemas holográficos, com textos transformados por projeção etc. Outras incursões podem ser imaginadas, notadamente no domínio de vocabulários particulares (cervos, raposas, botos, linguagem algorítmica de computadores etc.). Seria necessário um longo artigo para enumerar as possibilidades aqui apenas mencionadas e às vezes esboçadas. Não é nada fácil discernir sobre o avanço, a partir do único exame da semente, qual será o sabor de um fruto novo. Tomemos o caso da restrição alfabética. Em literatura, ela pode conduzir ao acróstico que não se saberia afirmar que foi produto de obras chocantes (entretanto, Villon e, bem antes dele, o salmista e autor das lamentações ditas de Jeremias...); em pintura ela dá Herbin, e é muito melhor; e em música a fuga sobre o nome de B.A.C.H. E, eis aí uma obra estimável. Como os inventores do alfabeto teriam suspeitado de tudo isso? Em resumo, o anoulipismo é dedicado à descoberta, o sintoulipismo à invenção. De um e de outro existem muitas passagens sutis. 

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Uma palavra, enfim, a algumas pessoas particularmente sérias, que condenam sem exames e sem apelo toda obra onde se manifesta alguma propensão à piada. Quando estão envolvidos poetas, existem diversão, farsas e trapaças, tudo o que pertence à poesia. A literatura potencial, nesse caso, resta como a coisa mais séria do mundo. 

                                                                                                                             François Le Lionnais.

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