quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Poema

Se me perguntas o que almejo
Farei brinquedo de tua palavra
Caçando prefixos beduínos
No deserto de teus sentidos
Enquanto insistes:
O homem precisa de um sonho
Os meus há muito devorei
E, digo a ti, pareceram-me apetitosos
Enquanto te acabrunhas
E eu me abracadabro
Sorrindo de teus escárnios
Descarnando o sentido de tuas parábolas
Sintonizando as parabólicas de minha pena
Desgastada com a força de minhas mãos infantis
Imaturas, sem nada almejar mais que o peso da pena
E, ao final de teus sonhos vendidos a mim tão caros
Tentando pousar ósculos de óculos com lábios tortos
Em tuas mãos de sábia causídica da vida, te direi:
Ainda não vês? É ser feliz pousando a vida em meu nariz.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Microcontos de Celular

1. A família juntou-se, ansiando a partilha do morto.

2. Colecionava a vida alheia. Quanto não dizem os necrológios!

3. Adilson nasceu, cresceu e notou que morreria.

4. Diziam que tinha sete vidas. Sem emprego, o sétimo andar não foi bem o pulo do gato.

5. Ia mudar-se para uma casa com piscina, mas morreu na praia.

6. Pelo horóscopo, não era prudente sair naquele dia. Sendo de câncer, morreu do mesmo jeito.

7. Adilson Jardim mudou o sobrenome para "caramanchão".

8. Lembrete: "Escrever este verbete cem vezes e nem ter em mente sementes sem 'e'. Crentes de serem mestres nesse cré sem cré".

9. Ih, Cici! Vi Lili, sim. Viking, brrrr! Tics, mimimis, shit! Ri. Fiz xixi, Cici! Xixi! ririririri! Quis fingir, dirigir, imprimir feeling! Vixi, Cici, mil links!

10. Um futum d'urubu num sururu dum rum-rum, ku-klux-cru, rum!, cuzcuz, xuxu, lulus, frufrus... Buh!

11. Poeta prolixo e sem imaginação. Escrevia versões.

12. Em meio aos perigos da vida, criaram uma senha só pra eles: "Amor". Palavra desconhecida dos inimigos.

13. Ao dobrar a borda dos sapatos, pôs o casaco no chão como fora uma oração. Voltava para casa: o coração.

14. Depois do sim, ela também se calou para sempre.

15. "A" catava palavras marcadas d'a, azadas para salgar charadas (chatas).

16. Os homens das cavernas vestiam casacos de pele. Primeiros a ditarem moda.

17. Viviam juntos, mas separados por uma atração carnal. Não daria certo.

18. Quando invertiam os papeis, ele pedia mais e ela desistia da brincadeira.

19. Vivíamos como peixes em aquário, e comíamos quando Deus jogava ração.

20. Ela vivia com tesão pelo esposa, que morria de ciúmes por isso.

21. Vendia bijus para sustentar uma autêntica joia de marido.

22. E ainda tinha de usar gravata num emprego nó cego.

23. Papai Noel disse que era mais popular que John Lennon. Também foi crucificado.

24. O casal compraria uma casa. O carro se tornava broxante.

25. Em breve, ela se tornaria o museu necessário para eu chamar de família.

26. Ela dizia: "Comprei este vestidinho pra morar". Os poetas de cada dia.

27. Antônio não cabia em lugar nenhum. Saiu de casa pra morar nos sapatos.

28. Do empresário casado com Ivete Sangalo: a formiga sustentada pela cigarra.

29. Eram notórias suas tentativas de permanecer anônimo.

30. Vitória, viúva vaidosa, vivia vangloriando-se: venal, velava vidas vizinhas, vagas vocacionadas, verdades vogas, vermezinhos vomitados, vexatórios. Vidinha, viu?!

31. Cada pança chalaça! Raça pancada, para lá das safadas, manga, canta, ladra, caça nas praças as aladas marcas, as altas aras...

32. Cantatagarelardear é o que os escritores fazem melhor!

33, Torpedo: Qrd Brbr, qr t dzr plvs q t imprm no core o q tnh n pto.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Conto: CINCO PÁSSAROS


         Acordou às sete horas da manhã e a primeira coisa que fez foi tocar o ombro do marido carinhosamente, contente pelo dia de sábado que havia chegado.
         O homem retrucou algo, virou-se na cama e começou a cochilar. Ela se levantou para fazer o café. As crianças dormiam no quarto ao lado.
         Estava ansiosa, tudo andaria como ela desejava, nada de aborrecimentos neste dia, o café sairia perfeito, as dores nas costas passariam, os filhos não brigariam à mesa e os pães estariam quentes e fresquinhos quando todos se levantassem. As plantas nos vasos das janelas sufocavam de esquecimento, os homens caminhavam pelas calçadas, ou dormiam, ou morriam em algum lugar. O dia clareou e o sol rapidamente cortava o céu cremoso de nuvens com sua faca fumegante. Pegadas na praia, risos infantis, bebês vindo para o mundo, trazendo seu estigma ambicioso, para poucos perceptíveis.
          Recolheu o jornal na entrada, mas evitou olhar para ele. Passou um tempo andando pela casa, o homem não saía da cama. O quintal pendia debruçado sobre o vazio do chão – um sonho de criança, um capricho tinha vindo habitar a casa: um viveiro de pássaros, de madeira, com seis lados e com tela, telhado de zinco, muitos poleiros e balanços, um tanque no interior com peixinhos dentro. Habitavam o viveiro um grupo de aves variadas, marchetadas, todas elas.


           A menina olhou para o viveiro, depois para a mãe e perguntou “quem pôs cores nas aves”, que a mãe respondeu “Deus, para que a gente pudesse admirar eles”. “Por que a mamãe botou eles na gaiola”, “porque a mamãe admira eles mais que as outras pessoas”. As aves, no entanto, espadanavam-se toda vez que a criança punha a mão na tela e sorriam novamente quando iam para longe a mãe e ela.
           

            Estava na janela, olhando seu quintal, contemplando o espaço vazio do viveiro, pronto para ser instalado desde que chegaram de mudança. Se choveria, se molhasse o quintal e a tela de arame, se estragasse o programa na praia – o marido estava na cama, as crianças no quarto ao lado, a mulher fechou a janela, ofuscada pela claridade, sentou-se.
             Um sonho de criança. Chegou ao fundo do quintal onde estava o viveiro, se escondeu atrás da grande árvore; subiu na raiz da planta silenciosamente, pediu-se com suas avezinhas, que agora riam e eram dela, mesmo quando pareciam rir dela, ainda que a mãe dissesse que pássaro não ri (Nosso Senhor também não ria, diziam os padres); mas para ela pássaros não têm que obedecer à mãe ou aos padres, riam todas as vezes que a menina passava e a mãe não via. Burrinha, como você é burrinha, filhinha; sai daí, deixa os passarinhos em paz, eles têm que dormir, mas ela sabia que os pássaros não eram da mãe, como a mãe queria que ela pensasse, e ficava horas encostada na árvore. Ali eles não poderiam vê-la, e só assim ela poderia ouvi-los cantarem, e aquele era o seu segredo. Como a mãe saía todas as tardes, conversava sossegada com seus pássaros, e seu canto era tão alto que nenhum som vindo da casa chegava aos ouvidos dela.  
              A mulher chorava mansamente. A criança brincava sozinha entre as plantas, esquecida do tempo, entre avencas e samambaias, onde não seria machucada nunca mais pelos bichos grandes, mamíferos, como diziam os livros da Escola, nem pelo padrasto. Ela olhava através do viveiro e pensava nas vinganças das aves contra ela por não poderem mais voar. A mamãe se foi, dizia o concriz todas às tardes, ela se foi para sempre, não volta mais; mas a menina o chamava de mentiroso, dizia-lhe que ele sempre falava aquilo, mas que ela sempre retornava, e tudo voltava ao normal. Um dia, porém, como o tempo passasse, a temperatura começasse a esfriar e até o último beija-flor do jardim partisse sem cumprir sua ameaça de encantá-la e levá-la consigo, a menina arriscou deixar seu jardim e voltou para dentro de casa. Suas pernas tremiam, andava pé atrás de pé. Será que sua mãe chegara do trabalho, que lhe dizia ser bom, para trazer dinheiro para comprar roupas bonitas para ela? Estaria preocupada, procurando por ela, daí deveria voltar logo para dentro, onde o padrasto esperava?
            O marido tocou amavelmente em seu ombro, fingiria não tê-la visto chorar, estava tudo bem, tomariam juntos seu café da manhã, ficariam juntos o resto do dia. A mulher aconchegou-se em seu peito, foram juntos até a mesa e em seguida ele começou a falar-lhe sobre o viveiro de pássaros, que logo poderia construí-lo para colocá-lo ali no quintal, como era o desejo da esposa. Não sou maluca, disse melancolicamente, fitando os olhos do marido, Claro que não é, querida, Acha que é estúpido o que estou te pedindo? Não, é uma coisa boa o que está me pedindo, as crianças também vão gostar, agora nós temos condições de possuir um viveiro bem grande e bonito, e vai ficar ali, no meio do quintal. Quero trocar a água deles e os coxos todos os dias, Claro, claro que sim. Agora ela sorria alegremente, o marido podia ficar mais relaxado, teriam um dia completo, não importava se chovesse, se não houvesse mais praia para as crianças ou o susto que o sinal lhes trouxesse, através do olhar dos pequenininhos.
             Ela concordou, mas tão logo olhou para trás, eram-lhe estranhas aquelas palavras, então uma mão forte agarrou seu pulso bruscamente no momento que ela atravessava o batente da porta da cozinha. Não se importavam com ela os pássaros de sua mãe? Mas a menina procurou pensar apenas nas falas das aves, não ouvir mais nada, mas longe do viveiro o barulho era imenso, os ruídos de cá abafavam os sons de suas vozes. Lá fora, o jardim dormia, serenava com a noite, enquanto a menina só ouvia os bichos do escuro, sapos e grilos, corujas e gatos pretos, que se misturavam aos de dentro de casa e lhe davam medo. Seus pássaros estavam seguros contra tudo isso, a menina conseguia alegrar-se por eles, apesar de tudo. Se juntaria a eles, qualquer dia, não esta noite, ainda; por enquanto, ficaria um pouco mais. A noite caiu rapidamente e tudo que lhe ocupava agora era um lembrar-se dos cheiros agradáveis do seu jardim, para esquecer talvez o cheiro forte do padrasto; voaria um dia nas asas dos seus amigos, para não pensar o quanto o peso do corpo de seu padrasto lhe sufocava. Queria ir com eles, leve.
              De trás da árvore, olhava à mãe ir levar comida para as aves no viveiro. Levava os coxos e os potes cheios de água e, na mente da menina, verdejavam idéias alegres e festivas. A imagem da mãe flagrada compunha a imagem da mãe que sentava ao lado do viveiro, que alimentava os passarinhos e produzia gestos distraídos, que era solícita às pequeninas criaturas e que assoviava como se conversasse com os pássaros – e viu os pássaros assoviarem, e diria para si mesma que viu ambos conversarem entre si. E depois desse encontro, a mãe diria para a menina Vamos embora, minha filha, e ambas fugiriam, voariam dali, das mãos do padrasto, para o céu acima; um pensamento mau sempre o via chegando no tempo errado, encontrando as duas arrumando as malas, então era preciso a imaginação dos pássaros, uma imaginação alada, para não pensar nele batendo nelas, jogando sua mãe contra a parede, chutando seu rosto; e assim, com as asas que seus pássaros lhe dariam para pensar coisas aéreas, todas as facas de cozinha ficariam longe de alcançá-las, pois as facas não chegam até o ar, e o sangue que vê na porta a protegeria dos males do mundo e dos castigos na casa da mamãe, como se as ungisse.
             E as duas saímos sem o padrasto nos ver, estamos longe. Quando chegamos a um lugar, tinha uma mulher gorda cheirando esquisito, muito perfumada, e o perfume era esquisito. A mamãe conversa com ela e ela nos deixa ficar. Parecia que elas já se conheciam. “Finalmente”, falou a mulher gorda. “Por alguns dias, apenas”, a mamãe prometeu para ela. Lá fora desmaiam as azaléias nos canteiros, e pardais gritam da janela, suas palavras não são menos gentis que as dos pássaros de mamãe; nós andamos por um corredor sujo, com goteiras no teto e lodo cobrindo as paredes. As azaléias que vi na entrada não tinha nenhuma por aqui, só vasos de plantas sem plantas, com cigarros dentro e um balde no chão aparando as goteiras do telhado. Tinham muitos sofás velhos e cadeiras de plástico no corredor. E moças sentadas neles, com vestidos curtos e muita maquiagem nos olhos, conversando. Olhavam para a gente e ficavam cochichando. Duas riram bem alto (os pardais), e a mulher gorda mandou elas se meterem nas vidas delas. Mamãe me puxa com força, agora, não me deixa parar quando uma das moças me pega pelo braço e quer conversar. A moça chamou minha mãe de um nome feio, mas a gente continuou a andar até o fim do corredor.
         Entramos em um quarto que a mulher gorda abriu com a chave. As paredes eram brancas, mas estavam tão encardidas que dava para ver manchas de mãos de gente e tinha muita parte da casca da tinta caindo. Tiraram os lençóis da cama, que ficava no meio do quarto, outras coisas de dentro da gaveta de um movelzinho, que esconderam de mim numa sacola de plástico, depois a mulher gorda saiu com eles. Mamãe colocou a mala em cima da cama e tirou roupa para a gente vestir. Sentei na beira do colchão e ela me disse para eu não parar para conversar com as moças da casa, enquanto a gente estivesse ali. Aí reparei que havia um sofazinho em um canto do quarto, que Mamãe me fez deitar nele, e logo dormi, de tão cansada.
           Quando eu acordei, já estava tudo escuro, era noite e eu estava sozinha. Ouvi uma música no corredor, muita gente falando alto e gargalhando. Tinham vozes de homens e as risadas das mulheres. Fiquei sentada no sofazinho, tentando ouvir o que diziam e olhando no escuro a luz que passava por debaixo da porta. Me sentia tonta daquelas coisas novas, começava a ficar arrepiada de medo, e quando alguém colocou uma chave na porta e entrou no quarto fiquei parada, sem me mexer. Era minha mãe. Pareceu que sorriu para mim no meio do escuro, mas não ligou a luz nem mesmo quando fechou de novo a porta com a chave. Sentou junto de mim no sofá e mostrou o prato de docinhos de festa que me trouxe. Estava arrumada e perfumada, com vestido bonito e maquiagem nos olhos. Não perguntei por que ela estava vestida assim e comi alguns doces. Está gostoso? Fiz que sim com a cabeça e ela me afagou os cabelos, apanhou uma escova em cima da cama e me penteou. Continuava sorrindo para mim. Então eu perguntei se podia voltar com ela para a festa que estavam dando lá fora, mas ela fez uma cara séria e me proibiu de sair do quarto todas as vezes que davam festas na casa. Prometeu que me levaria para tomar sorvetes todas as noites que não tivessem aquelas festas. Resignei-me. Beijou-me no rosto e me mandou dormir, antes de sair e voltar a trancar a porta. Depois de uma tentativa frustrada de ver alguma coisa pelas brechas da porta, voltei para o sofá, cansada de ficar deitada no chão frio e abatida pela fadiga e pelo medo.
            Nessa hora, a menina voltava a sonhar. Nesses sonhos, ela acorda cedo e vai escondida até o jardim. A mãe estava lá, com os passarinhos do viveiro. Elas estão excitadas, como a criança nunca tinha visto. Elas sabem que a mãe trazia os coxos de alpiste e as vasilhas de água, e começavam a falar com ela, a gritarem para ela, desde o momento que abria o ferrolho da porta da cozinha. A mãe ria do alvoroço que elas faziam, foi a primeira vez que a menina pôde ver. A mãe ria, e essa imagem ficou na sua lembrança e a acompanhou para sempre. Enquanto isso, as raízes das plantas cresceriam em paz aos seus pezinhos, e as folhas que caíam traziam vida, não mais a morte. O concriz, ave medonha colocada no viveiro por engano de sua beleza, havia matado já dois outros passarinhos do viveiro. Eram um modesto papa-capim e um frágil bico-de-lacre. Furou as cabeças deles com seu bico de agulha e deixou os dois mortos perto do pequeno tanque de peixes. Foi em duas ocasiões. A mãe ficou aborrecida com o acontecimento, mas tinha dó de retirar o concriz de dentro do viveiro, que era a ave mais bonita de lá e a que cantava mais forte. A menina ficava triste a cada passamento, chegava a ter raiva do concriz, com seu olhar sem expressão. Como não tinha acesso às motivações da criatura, começou a ver nele um malvado.
         Mas um sangue de boi voa com decência e pressa para o poleiro mais alto, em frente ao da ave medonha, desafia a autoridade do concriz; o corrupião se debate com fúria dentro do viveiro, voando sem direção, e o riso da mãe já é desfocado, sem o contorno, sem que o ponto fixo volte a aparecer dentro do círculo.

         Desfaz-se todos os nós, corro pelo quintal desarvoradamente, grito enquanto desabam manadas de nuvens sobre as copas das árvores, que derrubam as florzinhas ainda em botão, encerrando a chance de alguma delas frutificarem este ano. O meu esconderijo precioso é assim revelado, o viveiro vai ficando para trás. Sei que o sangue de boi estará em breve talvez caído perto do tanque de peixes, a cabeça aberta e a vontade vã.
        A partir daqui vou crescendo, não vejo mais as luzes sob a porta, nem tenho mais coragem de apagar alguma para voltar a vê-la indiretamente, incidindo nas frestas. São inúteis a algazarra das outras crianças e o tilintar de copos na outra sala, mas eis que não havia algazarra de crianças nem tilintar de copos, apenas vozes de homens e risos de mulheres cheirando a perfume barato; tudo o que consigo ver é apenas indiretamente, são vestígios, são sombras de lugares, de coisas, de pessoas. Terão morrido também o frei-vicente, o galo-de-campina?
        Melhor voltar para o marido dormindo e as crianças no outro quarto. É dia de praia.

Crônica-Poema: "O PRAZER"


        O prazer está amarrado de uma maneira atroz ao presente. Ele não pode ser adiado, “a felicidade não se compra” nem é dividida em suaves prestações.
        Vive-se na feliz expectativa dos 65, 70 anos. Mas é uma alegria compartilhada apenas entre os que “têm muito tempo ainda”. As estatísticas só são gentis com quem se guarda, se recolhe, adia o prazer o máximo possível, porque o Sistema ensina que ele sempre estará mais na frente (ali, no final do arco-íris). “Comportar-se” é a palavra-cha­ve com que o Sistema opera. O prêmio pode ser a vida eterna, por exemplo, cheia de gozos. Entre os mais pessimistas, entretanto, só se pode lamentar uma coisa, que é mais ou menos certa: seja o que vier, se vier, depois enterram o sujeito, ele é esquecido, mesmo depois de alguém lembrar, no dia de sua morte, que foi um exemplo de virtude e que seguiu as regras da sociedade, as quais ninguém lhe disse quem criou. Ganha ou não estátua em praça pública. Terá passado pela vida como uma coisa teimosa que, ainda que tivesse aceito abrir mão dos prazeres temporários à sua disposição, somente adiou, por um tipo de maldade que lhe pertence, o alimento que outras criaturas menos teimosas que ele aguardavam com ansiedade, os vermes da sua tumba, anônimos como ele será.
          Então, por que abrir mão de certos prazeres que, se para a gloriosa Humanidade será um motivo de escândalo, são certamente deliciosos para o corpo? A resposta viria, como cobrança da consciência (disfarce para o medo da vida), na forma de um “as conseqüências seriam tragicamente dolorosas, pois trariam o sofrimento, seja por parte de outros sujeitos e de seus vetos, seja por uma moralidade pessoal, seja por saber que a vida sob certos tipos de prazeres se encurta absurdamente, ou melhor, proporcionalmente ao tamanho do prazer solitário (leia-se 'as perversões', por exemplo)”.
          Imensamente, intensamente, o prazer do sujeito se encontra vinculado à utilidade para os outros – os outros que formam o conjunto sem cara, chamado o Sistema, não aqueles átomos dispersos que se deslocam aqui e ali de suas margens “controláveis”. “Deseje, queira, excite-se, possua, mas devolva o prazer que lhe permitimos com os juros devidos”. A Religião o permite para a geração de herdeiros, a mão-de-obra de sua fé. A mulher o permite, para que possa receber em troca o afeto. O mercado o multiplica, para que os lucros estejam garantidos. Mas o prazer é algo restrito, é algo que deve permanecer assim, e todos o querem assim. Esse é seu sentido, essa é sua condição, sem a qual não teria existência, e que não deve ser compartilhado mais do que por uma, duas pessoas. Às vezes dez, às vezes uma multidão, mas cada qual envolvido numa aura particular de êxtase e mistério. O prazer pertence ao eu. Daí sua natureza performática, de oroboros, de serpente que busca sua própria cauda, que procura infligir dor a si mesma, percurso de ida e retorno que representa o prazer, mas igualmente o sofrimento. A memória é o passado do Sistema que assombra os indivíduos. A dimensão do prazer é solitária e egoísta, o retorno a si é a resposta da procura do outro. Não o “outro”, com sua vontade personalíssima, mas o outro que não é outro senão “eu mesmo”. Daí a destruição aurática do outro para a permanência de um único gozo: o meu.
         “Por que certas pessoas somente sentem prazer quando infligem o Mal aos outros?”, perguntam as pessoas atônitas com os crimes sexuais. Mas será que o prazer, mesmo no amor platônico, não é, ele mesmo, um crime contra a humanidade? Mas o que é o amor platônico, senão uma “ereção escondida até do objeto amado”? Mas o que é “a Humanidade”?
           O degenerado é o indivíduo que buscou encarar seus demônios de frente e acei­tou compartilhar o mundo com eles, ao invés de vencê-los e aliando-se em derrota a um deus que nada pede para si, a não ser uma morte suave para a alma e rica em pancadas para o corpo. Ele é o sonhador que ousou se excitar com uma cena de lindas crianças de cartões postais, meninos e meninas, entregues às suas mãos enormes que se derramam e escorrem sobre aqueles pequeninos e frágeis corpos. Como evitar o arrepio da sensação agradável de controle e domínio sobre suas vontadezinhas de fino cristal? Mas o degenerado, em qualquer tempo, também é aquele que “arroga” (arrogare, eu desejo, eu tomo para mim) o que acredita que já lhe pertencia. O político arroga o poder, o povo arroga a democracia, os pais arrogam a educação de seus filhos. Quantos crimes não passaram impunes em nome da “harmonia do Sistema”?
             Quando o prazer é exposto ao público, a multidão precisa reabsorver seus ex­purgos, devolver o prazer para dentro de si, de seu raio de ação e da sua vista promíscua. Uma retroalimentação contínua. Como um boi que rumina seu repasto e, molhando-o com sua saliva pegajosa, esconde-o novamente nas entranhas obscuras de seu grande estômago insaciável. A grei devora o objeto que lhe dá prazer, uma vez que este lhe é exposto. Apenas o modo de devorar o que lhe satisfaz é apresentado de maneiras distintas, de acordo com cada classe que forma o Sistema. Em O Perfume, do escritor Patrick Süskind, a multidão de sujos e maltrapilhos comemora antropofagicamente seu pequeno Jean Grenouille, após se embriagarem de sua essência de moças virgens. A excitação sexual, a orgia impudica só era criminosa aos olhos da classe média, dos comerciantes e dos clérigos, dos homens de negócios e de suas distintas senhoras. Portanto, ei-lhos entregues à sua própria depravação. A dos desqualificados pelo Sistema era sua fome. Os primeiros devoraram as virgens, suas próprias crianças que aquela pequena rã trazia dentro de si; os segundos, a própria rã. Para uns, o prazer estava completamente saciado, não havia mais qualquer resquício de sua existência na terra; logo, não haveria memória, e muito menos arrependimento. Mas, para os outros, enquanto aquele odor que permanecia nele estendesse o prazer, sua inteligência de cultura superior necessitava nomeá-lo de outros termos menos lascivos, tais como “ternura”, “indulgência”, ou o pior de todos os títulos, a essência mesma de sua alma maligna burguesa: “o amor”.
           Mas o prazer é igualmente burguês, e igualmente proletário. Seu território é um intercurso, que pode ser as vias da ascese ou as tripas do estômago. A trilha é áspera e o preço é caro em qualquer situação. Afinal, a gula também é um pecado, assim como a luxúria. Os bons garfos seguram, na realidade, tridentes com que espetam os famintos, e suas bochechas rosadas são o estigma de seu parentesco com o diabo.
            Logo, o prazer é simpático à “Humanidade”, desde que possa ser chamado de outra coisa, qualquer uma que faça perder no indivíduo a lembrança pessoal, que faça perder o indivíduo no coletivo.


Olinda, 26 de dezembro de 2006 

terça-feira, 8 de abril de 2014

Criação: "É o Quê?"




Essa é dos tempos da comunidade que criei para o ALiPo (Ateliê de Arte e Literatura Potencial) no Orkut. A experiência consiste em produzir todo um texto feito unicamente de perguntas. Do foco narrativo aos diálogos, nenhuma afirmação direta, apenas perguntas, questionamentos, indagações, dúvidas. O aproveitamento da técnica é de responsabilidade exclusiva do escritor, mas abre espaço para dúvidas existenciais de um lado, a dúvida da frase "certa", da afirmação severa, além de ilustrar a falta de diálogo entre as pessoas nos dias de hoje, de ouvir a opinião do outro, de uma necessidade esdrúxula e tagarela de somente ouvir no final a própria voz, de ter a última opinião. O diálogo abaixo, está contido na Comunidade do Orkut, e foi construído a muitas vozes com os membros, dentro de outra perspectiva, como atividade didática para alunos do Fundamental 2. Participantes: Adilson Jardim, Evelyn Leite, Selma Oliveira, João Paulo, Jefton Pereira, Beronice Borges.

O tema exposto: Preguiça.

- Você não vai trabalhar hoje, não? 
- Não posso folgar um dia na semana sem te dar satisfação?
- Você tá falando que sou possessivo?! 
- Você está pronto para ouvir a verdade? 
- Se eu disser que sim, você confessa que foi demitido? 
- Quem foi demitido? 
- NÃO FOI VOCÊ?
- Não acha que está tirando conclusões precipitadas a meu respeito?
- Então, você foi demitida?
- Posso dormir um pouquinho mais, antes de responder?
- Você é preguiçoso assim sempre ou só pra trabalhar? 
- O que é que você acha?
- Ah, já sei, essa preguiça toda é ressaca da farra na noite passada, não é?
- Você é bastante espertinha, como adivinhou?
- Posso dormir mais um pouco antes de brigarmozzzzzzzz?
- Você acha que iria brigar com alguém tão preguiçoso como você??
- Você não brigaria com alguém preguiçoso?
- Posso voltar a dormir para ir trabalhar?
- Queres uma xícara de café bem quentinho para despertar?
- E você, não vai trabalhar hoje não?

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Psicotécnica: O Homem da Caverna (Lia de Sá Leitão)

Estou desenvolvendo textos de ficção baseados em sinais de transtornos mentais, cuja patologia ou termos relacionados aos sinais serão chamados de "psicotécnica". A escritora Lia de Sá Leitão enviou-me um conto de sua lavra, que serve de excelente exemplo. Eis seu texto.

O HOMEM DA CAVERNA (23/09/2013)

A sensação era percebida nos 5 órgãos: pele, olhos, boca, ouvido e narinas, tudo se fazia presente depois da percepção aguçada do fato. O homem era apontado como uma aberração da miséria! Um ser estranho com cabelos desgrenhados, não se sabia cor da pele, tamanha era a sujeira, em meio à cena dantesca um par de olhos assustados quase que esbugalhados, não atendia chamados também não emitia sons parecia mudo! Deu-lhes comida, arroz, feijão, carne, macarrão comeu com a mão um punhado, fez uma careta e atirou o prato a metros de distancia o sabor parecia horrível! Aceitou a banana que comeu se deleitando como um a manjá dos deuses.
Lembro-me! Aquele homem tinha um cheiro insuportável! Mais parecia fossa estourada. Os enfermeiros pediram aos bombeiros que agilizassem um banho para a criatura diante a situação de estranheza.
Todos queriam do homem a sua história, o seu passado, mas ninguém naquele momento tentava deixa-lo lembrar o fato que levou aquele estado de abandono. O eiditismo a imagem perfeita do passado levaria a uma compreensão melhor daquele evento.
A sensopercepção de todos os envolvidos gritava pela imagem real, material do homem.
Incrível saber que ainda havia gente na era das cavernas em pleno terceiro milênio.
O homem, na verdade tinha um olfato aguçado para o desconhecido, o paladar diferente do nosso, tudo aquilo que causava pavor aos nossos sentidos era um contra ponto logo percebido pelos olhares atentos dos estudantes de psicologia, a hiperpercepção era marcante! As mãos tapando as orelhas denunciavam a irritação que sofria diante dos cochichos entre professores, alunos e enfermeiros tudo era um barulho fora do comum. As falas, os sussurros no corredor pareciam vozes em autofalantes que o desequilibravam.
A estranheza com um simples e quase imperceptível tic tac do relógio na parede era para aquele homem era demasiadamente alto, seus tiques taques sistemáticos e pausados pareciam estar em altíssimos decibéis, o homem apontava para o relógio, e um enfermeiro enorme dizia com a voz de anjo: olha a hora da higiene corporal! Batia duas palmas e retornava a fala: um belíssimo banho para recobrar a consciência e conhecer o psiquiatra de plantão.
Depois do primeiro contato com a civilização a saudade de sua caverna e de sua gente. Ainda sem comunicação alguma, ele, ali entregue nas mãos dos enfermeiros teve o primeiro contato com a cultura moderna, um banho frio! Tudo era sem graça, sem cor, sem cheiro, tudo tornou-se tão diferente que o pobre caiu em uma hipopercepção e naquele momento acocorou-se junto à parede, tremia arrepiado e assustado havia entrado em um processo depressivo em tão pouco tempo de convívio.
Alguma coisa acontecia: entregaram várias folha de papel desenhados, um lápis, uma faca, um pente, tudo ele parecia conhecer e saber do que se tratava mas não conseguia se expressar, falar o que seriam os objetos, logo um estudante cochichou com a professora de psicopatologia que acompanhava o evento; é isso que se chama agnosia? Ele reconhece, mas não sabe expressar ou falar o que é cada objeto. Assim como não era agnosia, e curiosamente também não era uma pseudo alucinação, pois os objetos existiam concretamente ele não os reconhecia por falta de contato, de uso, de saber a serventia de cada um. Nada daquilo fazia parte de seu universo, nada daquilo era codificado em seu cérebro.
Alguém lhe deu um espelho para que se visualizasse e o homem espantou-se, ele olhava curiosamente para o espelho, primeiro tentou passar a mão no cabelo da imagem do espelho, não gostou da sensação, depois entendeu que aquele ali refletido era ele mesmo quando passou a mão em seu rosto e se viu refletido ali. Mesmo ali nítido de cabelos raspados, unhas cortadas, barba feita e sem sujeiras, ele próprio era o objeto deturpado, Ilusão perceptiva, tremido, disforme e retorcido. O susto! O homem gritou! Pulou! Correu! Jogou-se contra os enfermeiros, queria sumir, sair daquele observatório.
Ele sabia que era normal mas aqueles seres tão diferentes dele queriam fazê-lo entender que ele era o diferente.
Olhou para o espelho mais uma vez e alisou com carinho aquele rosto bruto, passou a mão tosca naquele cabelo ali refletido, e começou um diálogo inenarrávelmente digno de um intelectual. Apenas repetia as vozes que ouvia sair daquele espelho. O psiquiatra que havia chegado, já não entendia mais nada! Disseram que era um homem das cavernas, nada fazia sentido, e ali, o homem repetia as vozes do espelho! Aquilo é alucinação! Caso típico de alucinação.
Olhou para os demais e replicou com ares de freudiano desprezo pelos demais e disse: esse cidadão alucinou! Ouve vozes do espelho e as reproduz perfeitamente, ouve música e canta com o espelho! Alucinação! Olhou para um dos enfermeiros e pediu para tirar-lhe o espelho e ligar a televisão, foi uma luta, mas enfim tiraram-lhe o objeto e apontaram a televisão, o homem sentou-se riu, acenou conversou um pouco e saiu sem dar a mínima importância para aquele objeto.
Mas logo em seguida conversava fluentemente e alegremente com alguém do seu lado, gesticulava, ninguém via nada, mas ele insistia em dizer.
Fala aê Osvaldo, conta tudo isso que você me diz para esses babacas que pensam que eu estou alucinado, que eu ouço vozes e vejo coisas, inclusive você!
Alucinação! Que alucinação! Se fosse essa tal de alucinação não seria você, Osvaldo! Seria um ninguém participando do nosso colóquio.
Tai meu braço, me beliscar... ui! Doeu seu miserento! Era pra beliscar de mentirinha! Osvaldo você acha que vale a pena eu apresentar você para eles? Convivemos tão bem que é bem capaz desses bestas acharem por bem nos separar. Psiu! Fica quieto, eu obedeci aquelas falas que você me disse: fica calado ou vão te prender num hospício. Eu fiquei anos calado, mas mesmo assim me pegaram, e ainda dizem que ouço vozes e falo com o nada! Fica calado ou você vai me complicar, me deixa fazer eles pensarem que eles são os alucinados!
O doutor se aproximou do homem e falou: amigo você chegou aqui sem dar uma palavra, agora sabemos que você fala e fala muito bem o português, que tal a gente conversar um pouco? O homem cedeu, olhou o Dr. E disse tá bom eu sei falar, mas quero apresentar ao senhor meu amigo Osvaldo, uma criatura sem igual! Fala com o doutor Osvaldo. O médico perguntou: como Osvaldo tava vestido e o homem perguntou ao doutor se ele era bicha. Se não via que o Osvaldo estava de camisa de botão marrom escura e calças jeans. Melhor que ele, com aquela roupa de doido fechada na piroca e com abertura nas costas deixando um frio na bunda! Ara! Também ele nem ligava mais pra nada! Que venha o frio na bunda que ali todos eram veados e queriam enfiar um pau no C. e ele chamou Osvaldo para mostrar aqueles homens que macho de verdade tinha uso de outra forma assim óóóó funck funck! Foda! Trepação! Comendo C. de doutor e de doutora! Assim óóóó fazendo gestos obscenos com a genitália mostrando para todos ali! Enquanto umas alunas pudicas fazem hum! Carinhas de enjoo! O psiquiatra anota: Coprolalia distúrbio causador de tiques nervosos que vão de palavras de baixo calão, simples piscar dos olhos até coisas como lamber as mãos ou manipular os órgãos genitais em público. E o homem se dirigia à Psicologa, com gentileza Drª.logo logo estarei livre desse inquérito e me despedindo desses tabacudos, sua mulher devassa! Fica aê com cara de puta de praça se fazendo de moça boa, borá rapa tira a roupa que fazer safadezas é bom! Os enfermeiros correram para segurar o homem que fazia gestos ainda mais obscenos que antes.
A ordem do Dr. Era aplicar um sossega leão para deixa-lo mais calmo e assim foi feito debaixo de urros e muita força! Finalmente o homem fala ao médico que estava com sono, um outro amigo ia chegar, e que deixassem ele entrar, era o seu conselheiro. Esse amigo era quem analisava o que ele tinha feito durante o dia e programaava as tarefas do dia seguinte. Esse amigo não era tão de verdade quanto o Osvaldo, pois era meio pai, meio gnomo e não gostava de Osvaldo. O doutor mais uma vez escreve na prancheta alucinações visuais, orais, auditivas e com presença também de imagens hipnagógicas, o doutor sabia que aquelas imagens chegavam na hora crepuscular.
Osvaldo dizia todo dia que era pra largar a amizade com gnomo que ele era de mentirinha, não existia, que eu tinha que mandar o gnomo sair dos meus aposentos antes de adormecer e não era saudável ficar dois homens de trololó, e o gnomo se danava de raiva do atrevimento de Osvaldo, por mais que eu dissesse sai daqui gnomo da peste! O gnomo não ia embora até eu dormir. Dizia muito sonolento: esse gnomo Dr. tem um olhar meio pai meio mãe por isso eu gosto dele, mas ele não é de verdade mesmo eu que finja. Ele não é igual ao Osvaldo que é meu amigo de verdade.
Doutor, outro dia eu ouvi dentro de meus ouvidos a minha voz dizendo para eu falar para Osvaldo que ele merecia morrer, eu falei para Osvaldo daquilo, e ele logo acertou não liga não essa voz que vem dentro de você e fala essas coisas é que sente inveja porque somos amigos.
O doutor ouve tudo aquilo com uma cara de freudiana análise e pede para o homem das cavernas falar mais desses amigos e vozes que ouve, quem são e de onde vem. O homem diz em tom de discurso: O mais interessante doutor não é o gnomo e sim quando a voz que vem de mim me convida para visitar meus órgãos, já fui várias vezes numa viagem muito longa e cansativa porém, muito diferente dessas de andar de ônibus ou avião, pelo menos a gente não se perde. A mais comum das viagens é essa em que a gente entra pela boca. Faz rapel no esôfago e entra num barco à vela e sai navegando pelo estômago, vê o pulmão soltando a brisa na vela do barco. Passar pelo paredão do fígado, e lá por trás do fígado ver duas bolinhas inchando e desinchando são os rins, eles que fazem a água no riacho correr e o barco singrar tranquilo até uma cascata alta e forte que cai nos intestinos e haja corredeira, chuá aqui, chuá ali, depois pimba! Cai de vez pelo reto e assai se chega ao fim da viagem!
Mas essa ultima vez que a voz me chamou para viajar foi diferente! Vi o meu estômago crescer e crescer e crescer, uma coisa estúpida era igualzinho a caverna de onde me acharam!
E a voz que saia do prato de comida que vocês me deram dizia tem veneno nessa comida! Fiquei apavorado, olhei a banana e a casca da banana falou: vem comigo e você vai ver com seus olhos o que é isso, a princípio tive medo mas fui, sou macho! Doutor! Que susto nada! O senhor acredita que a banana que vocês me deram tinha virado comida e servia como papinha para um monte de homenzinhos que mais pareciam os irmãos gêmeos do gnomo? Mas isso não era problema ele não cospia os homenzinhos porque eles limpavam tudo. Estômago, tripas, rins, cocô, e o seu maior prazer era puxar catarro pelo nariz fazendo um ronco pelo nariz e quando os homenzinhos vinham no chupão do nariz ele mesmo tirava um por por um de dentro do nariz com as próprias mãos. O médico olha para o homem e pergunta como você puxa um por um do seu estomago com as mãos? Como quem tira catôta O homem das cavernas responde rindo, eita Dr. mas o senhor é mesmo tapado! Minhas mãos vão ficando finas, finas e vão crescendo, as pontas dos dedos ficam iguais pinça, mas continuam dedos, e daí com dois dedos, o indicador e o polegar eu pego um a um pelo nariz e jogo fora.
O doutor escreve na prancheta... alucinações visuais, orais, auditivas e com presença também de imagens hipnagógicas, o doutor sabia que aquelas imagens chegavam na hora crepuscular. O doutor escreve, esse home das cavernas é um laboratório para os alunos de psicopatologia, um verdadeiro Pain hospitalar. Agora tem alucinações cenestésicas em que vê os órgãos crescerem, tem também alucinação cinestésica a mão crescendo em pinça e alucinação liliputianas, os homenzinhos sendo alimentado no estômago. Alucinação
O médico vendo os alunos de psicologia atentos aquele procedimento dá uma explicação a mais das que já foram ditas em sala de aula. Alunos observem que: O termo alucinação não se aplica, costumeiramente, às falsas percepções que ocorrem durante os sonhos, enquanto o indivíduo adormece (hipnagógicas) ou quando desperta (hipnopômpicas).


LIA DE SÁ LEITÃO

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