quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Psicotécnica: O Homem da Caverna (Lia de Sá Leitão)

Estou desenvolvendo textos de ficção baseados em sinais de transtornos mentais, cuja patologia ou termos relacionados aos sinais serão chamados de "psicotécnica". A escritora Lia de Sá Leitão enviou-me um conto de sua lavra, que serve de excelente exemplo. Eis seu texto.

O HOMEM DA CAVERNA (23/09/2013)

A sensação era percebida nos 5 órgãos: pele, olhos, boca, ouvido e narinas, tudo se fazia presente depois da percepção aguçada do fato. O homem era apontado como uma aberração da miséria! Um ser estranho com cabelos desgrenhados, não se sabia cor da pele, tamanha era a sujeira, em meio à cena dantesca um par de olhos assustados quase que esbugalhados, não atendia chamados também não emitia sons parecia mudo! Deu-lhes comida, arroz, feijão, carne, macarrão comeu com a mão um punhado, fez uma careta e atirou o prato a metros de distancia o sabor parecia horrível! Aceitou a banana que comeu se deleitando como um a manjá dos deuses.
Lembro-me! Aquele homem tinha um cheiro insuportável! Mais parecia fossa estourada. Os enfermeiros pediram aos bombeiros que agilizassem um banho para a criatura diante a situação de estranheza.
Todos queriam do homem a sua história, o seu passado, mas ninguém naquele momento tentava deixa-lo lembrar o fato que levou aquele estado de abandono. O eiditismo a imagem perfeita do passado levaria a uma compreensão melhor daquele evento.
A sensopercepção de todos os envolvidos gritava pela imagem real, material do homem.
Incrível saber que ainda havia gente na era das cavernas em pleno terceiro milênio.
O homem, na verdade tinha um olfato aguçado para o desconhecido, o paladar diferente do nosso, tudo aquilo que causava pavor aos nossos sentidos era um contra ponto logo percebido pelos olhares atentos dos estudantes de psicologia, a hiperpercepção era marcante! As mãos tapando as orelhas denunciavam a irritação que sofria diante dos cochichos entre professores, alunos e enfermeiros tudo era um barulho fora do comum. As falas, os sussurros no corredor pareciam vozes em autofalantes que o desequilibravam.
A estranheza com um simples e quase imperceptível tic tac do relógio na parede era para aquele homem era demasiadamente alto, seus tiques taques sistemáticos e pausados pareciam estar em altíssimos decibéis, o homem apontava para o relógio, e um enfermeiro enorme dizia com a voz de anjo: olha a hora da higiene corporal! Batia duas palmas e retornava a fala: um belíssimo banho para recobrar a consciência e conhecer o psiquiatra de plantão.
Depois do primeiro contato com a civilização a saudade de sua caverna e de sua gente. Ainda sem comunicação alguma, ele, ali entregue nas mãos dos enfermeiros teve o primeiro contato com a cultura moderna, um banho frio! Tudo era sem graça, sem cor, sem cheiro, tudo tornou-se tão diferente que o pobre caiu em uma hipopercepção e naquele momento acocorou-se junto à parede, tremia arrepiado e assustado havia entrado em um processo depressivo em tão pouco tempo de convívio.
Alguma coisa acontecia: entregaram várias folha de papel desenhados, um lápis, uma faca, um pente, tudo ele parecia conhecer e saber do que se tratava mas não conseguia se expressar, falar o que seriam os objetos, logo um estudante cochichou com a professora de psicopatologia que acompanhava o evento; é isso que se chama agnosia? Ele reconhece, mas não sabe expressar ou falar o que é cada objeto. Assim como não era agnosia, e curiosamente também não era uma pseudo alucinação, pois os objetos existiam concretamente ele não os reconhecia por falta de contato, de uso, de saber a serventia de cada um. Nada daquilo fazia parte de seu universo, nada daquilo era codificado em seu cérebro.
Alguém lhe deu um espelho para que se visualizasse e o homem espantou-se, ele olhava curiosamente para o espelho, primeiro tentou passar a mão no cabelo da imagem do espelho, não gostou da sensação, depois entendeu que aquele ali refletido era ele mesmo quando passou a mão em seu rosto e se viu refletido ali. Mesmo ali nítido de cabelos raspados, unhas cortadas, barba feita e sem sujeiras, ele próprio era o objeto deturpado, Ilusão perceptiva, tremido, disforme e retorcido. O susto! O homem gritou! Pulou! Correu! Jogou-se contra os enfermeiros, queria sumir, sair daquele observatório.
Ele sabia que era normal mas aqueles seres tão diferentes dele queriam fazê-lo entender que ele era o diferente.
Olhou para o espelho mais uma vez e alisou com carinho aquele rosto bruto, passou a mão tosca naquele cabelo ali refletido, e começou um diálogo inenarrávelmente digno de um intelectual. Apenas repetia as vozes que ouvia sair daquele espelho. O psiquiatra que havia chegado, já não entendia mais nada! Disseram que era um homem das cavernas, nada fazia sentido, e ali, o homem repetia as vozes do espelho! Aquilo é alucinação! Caso típico de alucinação.
Olhou para os demais e replicou com ares de freudiano desprezo pelos demais e disse: esse cidadão alucinou! Ouve vozes do espelho e as reproduz perfeitamente, ouve música e canta com o espelho! Alucinação! Olhou para um dos enfermeiros e pediu para tirar-lhe o espelho e ligar a televisão, foi uma luta, mas enfim tiraram-lhe o objeto e apontaram a televisão, o homem sentou-se riu, acenou conversou um pouco e saiu sem dar a mínima importância para aquele objeto.
Mas logo em seguida conversava fluentemente e alegremente com alguém do seu lado, gesticulava, ninguém via nada, mas ele insistia em dizer.
Fala aê Osvaldo, conta tudo isso que você me diz para esses babacas que pensam que eu estou alucinado, que eu ouço vozes e vejo coisas, inclusive você!
Alucinação! Que alucinação! Se fosse essa tal de alucinação não seria você, Osvaldo! Seria um ninguém participando do nosso colóquio.
Tai meu braço, me beliscar... ui! Doeu seu miserento! Era pra beliscar de mentirinha! Osvaldo você acha que vale a pena eu apresentar você para eles? Convivemos tão bem que é bem capaz desses bestas acharem por bem nos separar. Psiu! Fica quieto, eu obedeci aquelas falas que você me disse: fica calado ou vão te prender num hospício. Eu fiquei anos calado, mas mesmo assim me pegaram, e ainda dizem que ouço vozes e falo com o nada! Fica calado ou você vai me complicar, me deixa fazer eles pensarem que eles são os alucinados!
O doutor se aproximou do homem e falou: amigo você chegou aqui sem dar uma palavra, agora sabemos que você fala e fala muito bem o português, que tal a gente conversar um pouco? O homem cedeu, olhou o Dr. E disse tá bom eu sei falar, mas quero apresentar ao senhor meu amigo Osvaldo, uma criatura sem igual! Fala com o doutor Osvaldo. O médico perguntou: como Osvaldo tava vestido e o homem perguntou ao doutor se ele era bicha. Se não via que o Osvaldo estava de camisa de botão marrom escura e calças jeans. Melhor que ele, com aquela roupa de doido fechada na piroca e com abertura nas costas deixando um frio na bunda! Ara! Também ele nem ligava mais pra nada! Que venha o frio na bunda que ali todos eram veados e queriam enfiar um pau no C. e ele chamou Osvaldo para mostrar aqueles homens que macho de verdade tinha uso de outra forma assim óóóó funck funck! Foda! Trepação! Comendo C. de doutor e de doutora! Assim óóóó fazendo gestos obscenos com a genitália mostrando para todos ali! Enquanto umas alunas pudicas fazem hum! Carinhas de enjoo! O psiquiatra anota: Coprolalia distúrbio causador de tiques nervosos que vão de palavras de baixo calão, simples piscar dos olhos até coisas como lamber as mãos ou manipular os órgãos genitais em público. E o homem se dirigia à Psicologa, com gentileza Drª.logo logo estarei livre desse inquérito e me despedindo desses tabacudos, sua mulher devassa! Fica aê com cara de puta de praça se fazendo de moça boa, borá rapa tira a roupa que fazer safadezas é bom! Os enfermeiros correram para segurar o homem que fazia gestos ainda mais obscenos que antes.
A ordem do Dr. Era aplicar um sossega leão para deixa-lo mais calmo e assim foi feito debaixo de urros e muita força! Finalmente o homem fala ao médico que estava com sono, um outro amigo ia chegar, e que deixassem ele entrar, era o seu conselheiro. Esse amigo era quem analisava o que ele tinha feito durante o dia e programaava as tarefas do dia seguinte. Esse amigo não era tão de verdade quanto o Osvaldo, pois era meio pai, meio gnomo e não gostava de Osvaldo. O doutor mais uma vez escreve na prancheta alucinações visuais, orais, auditivas e com presença também de imagens hipnagógicas, o doutor sabia que aquelas imagens chegavam na hora crepuscular.
Osvaldo dizia todo dia que era pra largar a amizade com gnomo que ele era de mentirinha, não existia, que eu tinha que mandar o gnomo sair dos meus aposentos antes de adormecer e não era saudável ficar dois homens de trololó, e o gnomo se danava de raiva do atrevimento de Osvaldo, por mais que eu dissesse sai daqui gnomo da peste! O gnomo não ia embora até eu dormir. Dizia muito sonolento: esse gnomo Dr. tem um olhar meio pai meio mãe por isso eu gosto dele, mas ele não é de verdade mesmo eu que finja. Ele não é igual ao Osvaldo que é meu amigo de verdade.
Doutor, outro dia eu ouvi dentro de meus ouvidos a minha voz dizendo para eu falar para Osvaldo que ele merecia morrer, eu falei para Osvaldo daquilo, e ele logo acertou não liga não essa voz que vem dentro de você e fala essas coisas é que sente inveja porque somos amigos.
O doutor ouve tudo aquilo com uma cara de freudiana análise e pede para o homem das cavernas falar mais desses amigos e vozes que ouve, quem são e de onde vem. O homem diz em tom de discurso: O mais interessante doutor não é o gnomo e sim quando a voz que vem de mim me convida para visitar meus órgãos, já fui várias vezes numa viagem muito longa e cansativa porém, muito diferente dessas de andar de ônibus ou avião, pelo menos a gente não se perde. A mais comum das viagens é essa em que a gente entra pela boca. Faz rapel no esôfago e entra num barco à vela e sai navegando pelo estômago, vê o pulmão soltando a brisa na vela do barco. Passar pelo paredão do fígado, e lá por trás do fígado ver duas bolinhas inchando e desinchando são os rins, eles que fazem a água no riacho correr e o barco singrar tranquilo até uma cascata alta e forte que cai nos intestinos e haja corredeira, chuá aqui, chuá ali, depois pimba! Cai de vez pelo reto e assai se chega ao fim da viagem!
Mas essa ultima vez que a voz me chamou para viajar foi diferente! Vi o meu estômago crescer e crescer e crescer, uma coisa estúpida era igualzinho a caverna de onde me acharam!
E a voz que saia do prato de comida que vocês me deram dizia tem veneno nessa comida! Fiquei apavorado, olhei a banana e a casca da banana falou: vem comigo e você vai ver com seus olhos o que é isso, a princípio tive medo mas fui, sou macho! Doutor! Que susto nada! O senhor acredita que a banana que vocês me deram tinha virado comida e servia como papinha para um monte de homenzinhos que mais pareciam os irmãos gêmeos do gnomo? Mas isso não era problema ele não cospia os homenzinhos porque eles limpavam tudo. Estômago, tripas, rins, cocô, e o seu maior prazer era puxar catarro pelo nariz fazendo um ronco pelo nariz e quando os homenzinhos vinham no chupão do nariz ele mesmo tirava um por por um de dentro do nariz com as próprias mãos. O médico olha para o homem e pergunta como você puxa um por um do seu estomago com as mãos? Como quem tira catôta O homem das cavernas responde rindo, eita Dr. mas o senhor é mesmo tapado! Minhas mãos vão ficando finas, finas e vão crescendo, as pontas dos dedos ficam iguais pinça, mas continuam dedos, e daí com dois dedos, o indicador e o polegar eu pego um a um pelo nariz e jogo fora.
O doutor escreve na prancheta... alucinações visuais, orais, auditivas e com presença também de imagens hipnagógicas, o doutor sabia que aquelas imagens chegavam na hora crepuscular. O doutor escreve, esse home das cavernas é um laboratório para os alunos de psicopatologia, um verdadeiro Pain hospitalar. Agora tem alucinações cenestésicas em que vê os órgãos crescerem, tem também alucinação cinestésica a mão crescendo em pinça e alucinação liliputianas, os homenzinhos sendo alimentado no estômago. Alucinação
O médico vendo os alunos de psicologia atentos aquele procedimento dá uma explicação a mais das que já foram ditas em sala de aula. Alunos observem que: O termo alucinação não se aplica, costumeiramente, às falsas percepções que ocorrem durante os sonhos, enquanto o indivíduo adormece (hipnagógicas) ou quando desperta (hipnopômpicas).


LIA DE SÁ LEITÃO

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