quarta-feira, 25 de junho de 2014

Conto: CINCO PÁSSAROS


         Acordou às sete horas da manhã e a primeira coisa que fez foi tocar o ombro do marido carinhosamente, contente pelo dia de sábado que havia chegado.
         O homem retrucou algo, virou-se na cama e começou a cochilar. Ela se levantou para fazer o café. As crianças dormiam no quarto ao lado.
         Estava ansiosa, tudo andaria como ela desejava, nada de aborrecimentos neste dia, o café sairia perfeito, as dores nas costas passariam, os filhos não brigariam à mesa e os pães estariam quentes e fresquinhos quando todos se levantassem. As plantas nos vasos das janelas sufocavam de esquecimento, os homens caminhavam pelas calçadas, ou dormiam, ou morriam em algum lugar. O dia clareou e o sol rapidamente cortava o céu cremoso de nuvens com sua faca fumegante. Pegadas na praia, risos infantis, bebês vindo para o mundo, trazendo seu estigma ambicioso, para poucos perceptíveis.
          Recolheu o jornal na entrada, mas evitou olhar para ele. Passou um tempo andando pela casa, o homem não saía da cama. O quintal pendia debruçado sobre o vazio do chão – um sonho de criança, um capricho tinha vindo habitar a casa: um viveiro de pássaros, de madeira, com seis lados e com tela, telhado de zinco, muitos poleiros e balanços, um tanque no interior com peixinhos dentro. Habitavam o viveiro um grupo de aves variadas, marchetadas, todas elas.


           A menina olhou para o viveiro, depois para a mãe e perguntou “quem pôs cores nas aves”, que a mãe respondeu “Deus, para que a gente pudesse admirar eles”. “Por que a mamãe botou eles na gaiola”, “porque a mamãe admira eles mais que as outras pessoas”. As aves, no entanto, espadanavam-se toda vez que a criança punha a mão na tela e sorriam novamente quando iam para longe a mãe e ela.
           

            Estava na janela, olhando seu quintal, contemplando o espaço vazio do viveiro, pronto para ser instalado desde que chegaram de mudança. Se choveria, se molhasse o quintal e a tela de arame, se estragasse o programa na praia – o marido estava na cama, as crianças no quarto ao lado, a mulher fechou a janela, ofuscada pela claridade, sentou-se.
             Um sonho de criança. Chegou ao fundo do quintal onde estava o viveiro, se escondeu atrás da grande árvore; subiu na raiz da planta silenciosamente, pediu-se com suas avezinhas, que agora riam e eram dela, mesmo quando pareciam rir dela, ainda que a mãe dissesse que pássaro não ri (Nosso Senhor também não ria, diziam os padres); mas para ela pássaros não têm que obedecer à mãe ou aos padres, riam todas as vezes que a menina passava e a mãe não via. Burrinha, como você é burrinha, filhinha; sai daí, deixa os passarinhos em paz, eles têm que dormir, mas ela sabia que os pássaros não eram da mãe, como a mãe queria que ela pensasse, e ficava horas encostada na árvore. Ali eles não poderiam vê-la, e só assim ela poderia ouvi-los cantarem, e aquele era o seu segredo. Como a mãe saía todas as tardes, conversava sossegada com seus pássaros, e seu canto era tão alto que nenhum som vindo da casa chegava aos ouvidos dela.  
              A mulher chorava mansamente. A criança brincava sozinha entre as plantas, esquecida do tempo, entre avencas e samambaias, onde não seria machucada nunca mais pelos bichos grandes, mamíferos, como diziam os livros da Escola, nem pelo padrasto. Ela olhava através do viveiro e pensava nas vinganças das aves contra ela por não poderem mais voar. A mamãe se foi, dizia o concriz todas às tardes, ela se foi para sempre, não volta mais; mas a menina o chamava de mentiroso, dizia-lhe que ele sempre falava aquilo, mas que ela sempre retornava, e tudo voltava ao normal. Um dia, porém, como o tempo passasse, a temperatura começasse a esfriar e até o último beija-flor do jardim partisse sem cumprir sua ameaça de encantá-la e levá-la consigo, a menina arriscou deixar seu jardim e voltou para dentro de casa. Suas pernas tremiam, andava pé atrás de pé. Será que sua mãe chegara do trabalho, que lhe dizia ser bom, para trazer dinheiro para comprar roupas bonitas para ela? Estaria preocupada, procurando por ela, daí deveria voltar logo para dentro, onde o padrasto esperava?
            O marido tocou amavelmente em seu ombro, fingiria não tê-la visto chorar, estava tudo bem, tomariam juntos seu café da manhã, ficariam juntos o resto do dia. A mulher aconchegou-se em seu peito, foram juntos até a mesa e em seguida ele começou a falar-lhe sobre o viveiro de pássaros, que logo poderia construí-lo para colocá-lo ali no quintal, como era o desejo da esposa. Não sou maluca, disse melancolicamente, fitando os olhos do marido, Claro que não é, querida, Acha que é estúpido o que estou te pedindo? Não, é uma coisa boa o que está me pedindo, as crianças também vão gostar, agora nós temos condições de possuir um viveiro bem grande e bonito, e vai ficar ali, no meio do quintal. Quero trocar a água deles e os coxos todos os dias, Claro, claro que sim. Agora ela sorria alegremente, o marido podia ficar mais relaxado, teriam um dia completo, não importava se chovesse, se não houvesse mais praia para as crianças ou o susto que o sinal lhes trouxesse, através do olhar dos pequenininhos.
             Ela concordou, mas tão logo olhou para trás, eram-lhe estranhas aquelas palavras, então uma mão forte agarrou seu pulso bruscamente no momento que ela atravessava o batente da porta da cozinha. Não se importavam com ela os pássaros de sua mãe? Mas a menina procurou pensar apenas nas falas das aves, não ouvir mais nada, mas longe do viveiro o barulho era imenso, os ruídos de cá abafavam os sons de suas vozes. Lá fora, o jardim dormia, serenava com a noite, enquanto a menina só ouvia os bichos do escuro, sapos e grilos, corujas e gatos pretos, que se misturavam aos de dentro de casa e lhe davam medo. Seus pássaros estavam seguros contra tudo isso, a menina conseguia alegrar-se por eles, apesar de tudo. Se juntaria a eles, qualquer dia, não esta noite, ainda; por enquanto, ficaria um pouco mais. A noite caiu rapidamente e tudo que lhe ocupava agora era um lembrar-se dos cheiros agradáveis do seu jardim, para esquecer talvez o cheiro forte do padrasto; voaria um dia nas asas dos seus amigos, para não pensar o quanto o peso do corpo de seu padrasto lhe sufocava. Queria ir com eles, leve.
              De trás da árvore, olhava à mãe ir levar comida para as aves no viveiro. Levava os coxos e os potes cheios de água e, na mente da menina, verdejavam idéias alegres e festivas. A imagem da mãe flagrada compunha a imagem da mãe que sentava ao lado do viveiro, que alimentava os passarinhos e produzia gestos distraídos, que era solícita às pequeninas criaturas e que assoviava como se conversasse com os pássaros – e viu os pássaros assoviarem, e diria para si mesma que viu ambos conversarem entre si. E depois desse encontro, a mãe diria para a menina Vamos embora, minha filha, e ambas fugiriam, voariam dali, das mãos do padrasto, para o céu acima; um pensamento mau sempre o via chegando no tempo errado, encontrando as duas arrumando as malas, então era preciso a imaginação dos pássaros, uma imaginação alada, para não pensar nele batendo nelas, jogando sua mãe contra a parede, chutando seu rosto; e assim, com as asas que seus pássaros lhe dariam para pensar coisas aéreas, todas as facas de cozinha ficariam longe de alcançá-las, pois as facas não chegam até o ar, e o sangue que vê na porta a protegeria dos males do mundo e dos castigos na casa da mamãe, como se as ungisse.
             E as duas saímos sem o padrasto nos ver, estamos longe. Quando chegamos a um lugar, tinha uma mulher gorda cheirando esquisito, muito perfumada, e o perfume era esquisito. A mamãe conversa com ela e ela nos deixa ficar. Parecia que elas já se conheciam. “Finalmente”, falou a mulher gorda. “Por alguns dias, apenas”, a mamãe prometeu para ela. Lá fora desmaiam as azaléias nos canteiros, e pardais gritam da janela, suas palavras não são menos gentis que as dos pássaros de mamãe; nós andamos por um corredor sujo, com goteiras no teto e lodo cobrindo as paredes. As azaléias que vi na entrada não tinha nenhuma por aqui, só vasos de plantas sem plantas, com cigarros dentro e um balde no chão aparando as goteiras do telhado. Tinham muitos sofás velhos e cadeiras de plástico no corredor. E moças sentadas neles, com vestidos curtos e muita maquiagem nos olhos, conversando. Olhavam para a gente e ficavam cochichando. Duas riram bem alto (os pardais), e a mulher gorda mandou elas se meterem nas vidas delas. Mamãe me puxa com força, agora, não me deixa parar quando uma das moças me pega pelo braço e quer conversar. A moça chamou minha mãe de um nome feio, mas a gente continuou a andar até o fim do corredor.
         Entramos em um quarto que a mulher gorda abriu com a chave. As paredes eram brancas, mas estavam tão encardidas que dava para ver manchas de mãos de gente e tinha muita parte da casca da tinta caindo. Tiraram os lençóis da cama, que ficava no meio do quarto, outras coisas de dentro da gaveta de um movelzinho, que esconderam de mim numa sacola de plástico, depois a mulher gorda saiu com eles. Mamãe colocou a mala em cima da cama e tirou roupa para a gente vestir. Sentei na beira do colchão e ela me disse para eu não parar para conversar com as moças da casa, enquanto a gente estivesse ali. Aí reparei que havia um sofazinho em um canto do quarto, que Mamãe me fez deitar nele, e logo dormi, de tão cansada.
           Quando eu acordei, já estava tudo escuro, era noite e eu estava sozinha. Ouvi uma música no corredor, muita gente falando alto e gargalhando. Tinham vozes de homens e as risadas das mulheres. Fiquei sentada no sofazinho, tentando ouvir o que diziam e olhando no escuro a luz que passava por debaixo da porta. Me sentia tonta daquelas coisas novas, começava a ficar arrepiada de medo, e quando alguém colocou uma chave na porta e entrou no quarto fiquei parada, sem me mexer. Era minha mãe. Pareceu que sorriu para mim no meio do escuro, mas não ligou a luz nem mesmo quando fechou de novo a porta com a chave. Sentou junto de mim no sofá e mostrou o prato de docinhos de festa que me trouxe. Estava arrumada e perfumada, com vestido bonito e maquiagem nos olhos. Não perguntei por que ela estava vestida assim e comi alguns doces. Está gostoso? Fiz que sim com a cabeça e ela me afagou os cabelos, apanhou uma escova em cima da cama e me penteou. Continuava sorrindo para mim. Então eu perguntei se podia voltar com ela para a festa que estavam dando lá fora, mas ela fez uma cara séria e me proibiu de sair do quarto todas as vezes que davam festas na casa. Prometeu que me levaria para tomar sorvetes todas as noites que não tivessem aquelas festas. Resignei-me. Beijou-me no rosto e me mandou dormir, antes de sair e voltar a trancar a porta. Depois de uma tentativa frustrada de ver alguma coisa pelas brechas da porta, voltei para o sofá, cansada de ficar deitada no chão frio e abatida pela fadiga e pelo medo.
            Nessa hora, a menina voltava a sonhar. Nesses sonhos, ela acorda cedo e vai escondida até o jardim. A mãe estava lá, com os passarinhos do viveiro. Elas estão excitadas, como a criança nunca tinha visto. Elas sabem que a mãe trazia os coxos de alpiste e as vasilhas de água, e começavam a falar com ela, a gritarem para ela, desde o momento que abria o ferrolho da porta da cozinha. A mãe ria do alvoroço que elas faziam, foi a primeira vez que a menina pôde ver. A mãe ria, e essa imagem ficou na sua lembrança e a acompanhou para sempre. Enquanto isso, as raízes das plantas cresceriam em paz aos seus pezinhos, e as folhas que caíam traziam vida, não mais a morte. O concriz, ave medonha colocada no viveiro por engano de sua beleza, havia matado já dois outros passarinhos do viveiro. Eram um modesto papa-capim e um frágil bico-de-lacre. Furou as cabeças deles com seu bico de agulha e deixou os dois mortos perto do pequeno tanque de peixes. Foi em duas ocasiões. A mãe ficou aborrecida com o acontecimento, mas tinha dó de retirar o concriz de dentro do viveiro, que era a ave mais bonita de lá e a que cantava mais forte. A menina ficava triste a cada passamento, chegava a ter raiva do concriz, com seu olhar sem expressão. Como não tinha acesso às motivações da criatura, começou a ver nele um malvado.
         Mas um sangue de boi voa com decência e pressa para o poleiro mais alto, em frente ao da ave medonha, desafia a autoridade do concriz; o corrupião se debate com fúria dentro do viveiro, voando sem direção, e o riso da mãe já é desfocado, sem o contorno, sem que o ponto fixo volte a aparecer dentro do círculo.

         Desfaz-se todos os nós, corro pelo quintal desarvoradamente, grito enquanto desabam manadas de nuvens sobre as copas das árvores, que derrubam as florzinhas ainda em botão, encerrando a chance de alguma delas frutificarem este ano. O meu esconderijo precioso é assim revelado, o viveiro vai ficando para trás. Sei que o sangue de boi estará em breve talvez caído perto do tanque de peixes, a cabeça aberta e a vontade vã.
        A partir daqui vou crescendo, não vejo mais as luzes sob a porta, nem tenho mais coragem de apagar alguma para voltar a vê-la indiretamente, incidindo nas frestas. São inúteis a algazarra das outras crianças e o tilintar de copos na outra sala, mas eis que não havia algazarra de crianças nem tilintar de copos, apenas vozes de homens e risos de mulheres cheirando a perfume barato; tudo o que consigo ver é apenas indiretamente, são vestígios, são sombras de lugares, de coisas, de pessoas. Terão morrido também o frei-vicente, o galo-de-campina?
        Melhor voltar para o marido dormindo e as crianças no outro quarto. É dia de praia.

Crônica-Poema: "O PRAZER"


        O prazer está amarrado de uma maneira atroz ao presente. Ele não pode ser adiado, “a felicidade não se compra” nem é dividida em suaves prestações.
        Vive-se na feliz expectativa dos 65, 70 anos. Mas é uma alegria compartilhada apenas entre os que “têm muito tempo ainda”. As estatísticas só são gentis com quem se guarda, se recolhe, adia o prazer o máximo possível, porque o Sistema ensina que ele sempre estará mais na frente (ali, no final do arco-íris). “Comportar-se” é a palavra-cha­ve com que o Sistema opera. O prêmio pode ser a vida eterna, por exemplo, cheia de gozos. Entre os mais pessimistas, entretanto, só se pode lamentar uma coisa, que é mais ou menos certa: seja o que vier, se vier, depois enterram o sujeito, ele é esquecido, mesmo depois de alguém lembrar, no dia de sua morte, que foi um exemplo de virtude e que seguiu as regras da sociedade, as quais ninguém lhe disse quem criou. Ganha ou não estátua em praça pública. Terá passado pela vida como uma coisa teimosa que, ainda que tivesse aceito abrir mão dos prazeres temporários à sua disposição, somente adiou, por um tipo de maldade que lhe pertence, o alimento que outras criaturas menos teimosas que ele aguardavam com ansiedade, os vermes da sua tumba, anônimos como ele será.
          Então, por que abrir mão de certos prazeres que, se para a gloriosa Humanidade será um motivo de escândalo, são certamente deliciosos para o corpo? A resposta viria, como cobrança da consciência (disfarce para o medo da vida), na forma de um “as conseqüências seriam tragicamente dolorosas, pois trariam o sofrimento, seja por parte de outros sujeitos e de seus vetos, seja por uma moralidade pessoal, seja por saber que a vida sob certos tipos de prazeres se encurta absurdamente, ou melhor, proporcionalmente ao tamanho do prazer solitário (leia-se 'as perversões', por exemplo)”.
          Imensamente, intensamente, o prazer do sujeito se encontra vinculado à utilidade para os outros – os outros que formam o conjunto sem cara, chamado o Sistema, não aqueles átomos dispersos que se deslocam aqui e ali de suas margens “controláveis”. “Deseje, queira, excite-se, possua, mas devolva o prazer que lhe permitimos com os juros devidos”. A Religião o permite para a geração de herdeiros, a mão-de-obra de sua fé. A mulher o permite, para que possa receber em troca o afeto. O mercado o multiplica, para que os lucros estejam garantidos. Mas o prazer é algo restrito, é algo que deve permanecer assim, e todos o querem assim. Esse é seu sentido, essa é sua condição, sem a qual não teria existência, e que não deve ser compartilhado mais do que por uma, duas pessoas. Às vezes dez, às vezes uma multidão, mas cada qual envolvido numa aura particular de êxtase e mistério. O prazer pertence ao eu. Daí sua natureza performática, de oroboros, de serpente que busca sua própria cauda, que procura infligir dor a si mesma, percurso de ida e retorno que representa o prazer, mas igualmente o sofrimento. A memória é o passado do Sistema que assombra os indivíduos. A dimensão do prazer é solitária e egoísta, o retorno a si é a resposta da procura do outro. Não o “outro”, com sua vontade personalíssima, mas o outro que não é outro senão “eu mesmo”. Daí a destruição aurática do outro para a permanência de um único gozo: o meu.
         “Por que certas pessoas somente sentem prazer quando infligem o Mal aos outros?”, perguntam as pessoas atônitas com os crimes sexuais. Mas será que o prazer, mesmo no amor platônico, não é, ele mesmo, um crime contra a humanidade? Mas o que é o amor platônico, senão uma “ereção escondida até do objeto amado”? Mas o que é “a Humanidade”?
           O degenerado é o indivíduo que buscou encarar seus demônios de frente e acei­tou compartilhar o mundo com eles, ao invés de vencê-los e aliando-se em derrota a um deus que nada pede para si, a não ser uma morte suave para a alma e rica em pancadas para o corpo. Ele é o sonhador que ousou se excitar com uma cena de lindas crianças de cartões postais, meninos e meninas, entregues às suas mãos enormes que se derramam e escorrem sobre aqueles pequeninos e frágeis corpos. Como evitar o arrepio da sensação agradável de controle e domínio sobre suas vontadezinhas de fino cristal? Mas o degenerado, em qualquer tempo, também é aquele que “arroga” (arrogare, eu desejo, eu tomo para mim) o que acredita que já lhe pertencia. O político arroga o poder, o povo arroga a democracia, os pais arrogam a educação de seus filhos. Quantos crimes não passaram impunes em nome da “harmonia do Sistema”?
             Quando o prazer é exposto ao público, a multidão precisa reabsorver seus ex­purgos, devolver o prazer para dentro de si, de seu raio de ação e da sua vista promíscua. Uma retroalimentação contínua. Como um boi que rumina seu repasto e, molhando-o com sua saliva pegajosa, esconde-o novamente nas entranhas obscuras de seu grande estômago insaciável. A grei devora o objeto que lhe dá prazer, uma vez que este lhe é exposto. Apenas o modo de devorar o que lhe satisfaz é apresentado de maneiras distintas, de acordo com cada classe que forma o Sistema. Em O Perfume, do escritor Patrick Süskind, a multidão de sujos e maltrapilhos comemora antropofagicamente seu pequeno Jean Grenouille, após se embriagarem de sua essência de moças virgens. A excitação sexual, a orgia impudica só era criminosa aos olhos da classe média, dos comerciantes e dos clérigos, dos homens de negócios e de suas distintas senhoras. Portanto, ei-lhos entregues à sua própria depravação. A dos desqualificados pelo Sistema era sua fome. Os primeiros devoraram as virgens, suas próprias crianças que aquela pequena rã trazia dentro de si; os segundos, a própria rã. Para uns, o prazer estava completamente saciado, não havia mais qualquer resquício de sua existência na terra; logo, não haveria memória, e muito menos arrependimento. Mas, para os outros, enquanto aquele odor que permanecia nele estendesse o prazer, sua inteligência de cultura superior necessitava nomeá-lo de outros termos menos lascivos, tais como “ternura”, “indulgência”, ou o pior de todos os títulos, a essência mesma de sua alma maligna burguesa: “o amor”.
           Mas o prazer é igualmente burguês, e igualmente proletário. Seu território é um intercurso, que pode ser as vias da ascese ou as tripas do estômago. A trilha é áspera e o preço é caro em qualquer situação. Afinal, a gula também é um pecado, assim como a luxúria. Os bons garfos seguram, na realidade, tridentes com que espetam os famintos, e suas bochechas rosadas são o estigma de seu parentesco com o diabo.
            Logo, o prazer é simpático à “Humanidade”, desde que possa ser chamado de outra coisa, qualquer uma que faça perder no indivíduo a lembrança pessoal, que faça perder o indivíduo no coletivo.


Olinda, 26 de dezembro de 2006 

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