terça-feira, 24 de novembro de 2015

Restrição: Contos Politicamente Incorretos (CPI's)

Imagem adaptada de foto de guerra na Síria
O que seria um "conto politicamente incorreto" nos dias de hoje? A época não está pra peixe, a verdade é contestável e ela pertence a todo mund(an)o. Em literatura, existe algo politicamente incorreto? Mais ainda: que tipo de política se faz em literatura? A que atacar e pra quê? Quais os temas que ainda são capazes de ofender as pessoas?

Sexo, estupro, racismo, pedofilia, misoginia, xenofobia, há inúmeros temas "fáceis" de com que ofender/criticar, e ofender até que é fácil. Como fazê-lo? Os objetivos pertencem aos outros, assim como a leitura, eles que encontrem uma causa para a virulência do autor. Cortar o próprio dedo, fotografar e colocar em capa de livro? Nem o Van Gogh convence mais. Encher o texto de pornografia, cinco a cada 10 palavras entedia, até. Hoje, um livro de Sade produz talvez algumas masturbações entre intelectuais, como uma playboy muito aguardada desde o mês passado e que é esquecida no dia seguinte ao do lançamento. Essas são algumas colocações sobre o tema. Seguremos.

Na forma, ser politicamente incorreto também é fácil. Misture gêneros aparentemente inconciliáveis. Exemplo: Melodramas. A instituição acadêmica odeia, com raras exceções. Escreva com inúmeros erros gramaticais e de digitação. Encha a história de clichês facilmente identificáveis. Escreva histórias edificantes, com mensagens de amor e finais sempre felizes. São inúmeras as maneiras de se produzir um conto politicamente incorreto, também. Mas esse caminho não produz contos suficientemente bons na qualidade estética.

Esse é o problema: não é de fora para dentro que se produz algo que estarreça alguém, nem mesmo que se produza uma reflexão sobre o politicamente incorreto. O erro tem de vir de dentro do autor. É necessário romper não o sistema por fora, mas os seus próprios valores morais, estéticos, filosóficos e éticos. Aquilo que lhe confere uma visão de mundo deve ser posto de lado em nome de uma fórmula que incorpore por negação tudo aquilo que você mais preza. Poderá notar, depois disso: o politicamente incorreto não será o dos outros, será o seu.

Mas, que interesse há em se produzir tal obra? Comece a fazer e notará: seus valores particulares ficarão mais aguçados e menos clichês.

Mãos à obra. Para ver exemplo de Conto Politicamente Incorreto, leia o texto Negrinho, aqui no blog.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Primavera - Paul Éluard (tradução de Adilson Jardim)

Il y a sur la plage quelques flaques d'eau
Il y a dans les bois des arbres fous d'oiseaux
La nuage fond dans la montagne
Les branches des pommiers brillent de tant de fleurs
Que le soleil recule

C'est par un soir d'hiver dans un monde très dur
Que je vis ce printemps près de toi l'innocente
Il n'y a pas de nuit pour nous
Rien de ce qui périt n’a de prise sur toi
Et tu ne veux pas avoir froid

Notre printemps est un printemps qui a raison.
(do livro Le Phénix)

PRIMAVERA

Frente ao mar a água espraia-se em poças
No meio da mata, árvores de aves, árvores loucas
Na montanha cor de neve profunda
Ramos e flores têm tanto brilho
Que nem o sol sobre o ladrilho

Sol nada rude em pleno inverno
És sol e fonte e luz que aquece
Noite encontrando seu término
E nada tens do que perece
Somente há frio a quem espera

Tem sua razão nossa primavera. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Zênite




Marta recebia flores de Antônio na primavera, abraços no outono, mãos quentes no inverno e beijos sôfregos no verão. Amavam-se exponencialmente, e a cada estação renovavam a esperança no mundo de que o sol apenas nascia para ungir aquele casal de bênçãos e da felicidade mais contagiante. Era tanto amor que se projetava de Marta e Antônio, que diriam nascedouro de estrelas, com temperatura e densidade suficientes de paixão, que explodia como uma supernova, apenas para formar uma nova galáxia de sentimentos intensos em torno deles.
Então, a luminosidade daquele amor expandiu-se até clarear toda a humanidade. Tornou-se rubra de paixão e erotismo, gigantesca, ferveu os oceanos e deixou as bocas secas, os ânimos exaltados, os humores à flor da pele, queimou todo o hélio, derreteu as geleiras, perdeu todos os limites de pudor e de cortesia, selvagem e primitiva, obediente às próprias regras dos corpos atraídos à gravidade um do outro.
Até que esfriou, encolheu-se, tornou-se pesado, cerrado e ensimesmado, compactado em esfera de pura animalidade, existente enquanto a gravidade prendesse ambos àquela convivência e a atração entre os corpos e a pressão do núcleo isotérmico ainda fosse suportável para os dois, enquanto houvesse energia, que já não vinha mais das convenções sociais, mas do que neles tinha ficado dessas convenções.
Quando a massa de seus corpos se tornou demasiado grande e desequilibrada com o pique para as brincadeiras e a vontade das brincadeiras e a força de atração que levava às brincadeiras, e já não tinham mais fôlego para as brincadeiras, Marta e Antônio tornaram-se anões, de faces não mais rubras, mas pálidas, alvacentas e cansadas. O amor esfriou, sua luz esmaeceu, e o que antes os atraía, passou a repelir um ao outro. Tudo se tornou nebuloso, o colapso era iminente. Desabaria em seu próprio peso balofo de um amor que logo se tornaria apenas uma palavra no dicionário.

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