quinta-feira, 21 de abril de 2016

MÉTODO LITERÁRIO: "Chave da História"



Criação alipiana: “chave da história”. Uma história deve ser contada em torno de um mistério cujo enigma está presente nas letras iniciais de cada parágrafo. Aqui, o mistério da personagem Vânia está na palavra “viuvez”. Uma variação é que o leitor encontre tal chave no início e no final de cada parágrafo, segundo seus objetivos. Exemplo:

Vânia
Vânia enxotava todos os seus pretendentes. Aparentemente não gostava de nada que eles tinham a oferecer. Nem pães, nem roupas, nem beijos, nem sobrenomes. Nenhum poema a comovia, nenhuma promessa financeira massageava suas vontades, ela era vã para tais cortejos. Sua família, gente rica e famosa na cidade, passava vergonha, buscando jovens bem resolvidos para a moça, para dar continuidade às suas tradições.
Insondável, as pessoas diziam que era fria como o diabo e diabólica no gelo com que tratava seus enamorados. Se gostava de alguma coisa ou de alguém, ninguém ficava sabendo além dos rapazes. Desconfiavam que os pretendentes sabiam, mas ao serem questionados, nenhum contava a verdade. Que mistérios guardava aquela moça, que vontades revelava aos sujeitos, que deixavam sua família com os nervos em frangalhos?
Um a um, de advogados a engenheiros, de artistas a professores, ninguém saía casado com ela, e todos saíam prostrados. Vânia os estorvava e estorvava ao pai, a quem deixou soltar seguinte frase a conviva da casa, de sua semi-confiança: “Não é bem que não queira casar-se, são as condições que ela impõe”. Bastou essa frase sem maiores detalhes, para a boca miúda da cidade especular toda a vida.
Valorizada a cada dia, as pessoas defendiam a possibilidade da família toda ter qualquer meta de alcançar pretendente acima de todos em dinheiro, fama e sofisticação. Apostavam em dívidas do velho patriarca, procurador de justiça da cidade, dos tantos parasitas dentro de casa para sustentar, gente gastadeira até não poder mais. Mas as histórias de dívidas foram sendo postas abaixo, quando Vânia rejeitou o sobrinho de um Ministro da República. Nessa noite, depois de um jantar, podia-se ouvir da rua os gritos do pai com a moça e seus lamentos contra os gostos esquisitos da filha, verticais menos nos gastos do que no desejo ardente que não dava na cara, e se dava, era óbvio demais a cada pretendente, apenas.
E os meses foram passando, os anos, a família deixou de mão, e Vânia foi sendo esquecida pelos moços. Continuava frequentando a alta sociedade, enquanto passeava pelos subúrbios, de cima a baixo, atrás do companheiro certo, chave de seus mistérios, acima de outros pretendentes. Em sua estampa frondoso enigma, com frases horizontais de cada apaixonado deixado pelo caminho de promessas incumpríveis. Os anos passaram. Às vésperas de fazer trinta anos, iam embora o frescor e sua juventude em flor, suas carnes desejadas; o brilho do olhar esmaecia, e surgiriam em breve a tez gris em suas madeixas há muito desconformes com a idade que sustentava. Não se dissipavam suas condições misteriosas para casar. Até o dia de seus trinta anos.
Zanzava pelo centro o velho Setembrino, advogado de longa fama. Bastante cansado pela longa vida, o Sr. Setembrino havia enterrado sua segunda esposa há 1 ano, e diziam estar na cidade atrás de mais uma mulher. Não enganava ninguém com aquele olhar ladino, buscando presa ao redor enquanto conversava com as pessoas. Quando avistou a filha do velho Procurador andando por perto, admirou as formas e foi atrás do pai, interessado em fazer negócios. Para surpresa de todos, Vânia adorou recebê-lo e ofertou imediatamente suas condições. O velho aceitou, mas era o Setembrino quem, um ano depois, enterrava sua terceira esposa.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

ECLIPSE DO POEMA O GONDOLEIRO DO AMOR (Castro Alves)




Eclipse
Criado por Jacques Jouer
Definição: Variação de S+7 (consiste em trocar todos os substantivos do texto pelo sétimo na ordem que consta de um dicionário qualquer consultado) a partir de um texto escolhido. É composto de duas partes cuja segunda é o S+7 da primeira (ou a primeira é o S-7 da segunda).


Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar...
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar.

A partir do minidicionário Aurélio, Nova Fronteira, e trocando os substantivos pelo sétimo :
 

olhos > oligopólio;
noites > nomeada (fama, reputação);
negrume >  nenúfar (erva aquática);
mar > maracutaia



Nova estrofe:




Oligopólia visão,
Negra nomeada...
Nenúfar falsa de grão,
Flor de maracutaia.

 

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