quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Método: Altered Book/ Livro de Família



Nossa técnica, criada há várias postagens atrás, consiste em desenvolver roteiros a partir de imagens que constituirão o núcleo de pequenas narrativas. São imagens 👴👵 em domínio público, que deverão ser recontextualizadas. Existem algumas regras simples para essa narrativa icônico-verbal:
1) As imagens deverão ser fotografias de pessoas, famosas ou desconhecidas;
2) Os temas das fotos são abertos, mas deverá conter um clima nonsense, incomum, cômico ou de alguma forma dramático;
3) Quanto mais politicamente incorreta parecer a imagem, "melhor";
4) O trecho narrado deve apresentar as personagens na imagem como se fossem membros da família de um narrador fictício, e a cena na imagem deverá distorcer o retrato, emprestando-lhe um caráter positivo, que atenue o drama testemunhado na imagem. Assim, amplia-se o nonsense, o drama e o choque da pequena narrativa, mantendo-se, como nos parece, a natureza da ficção artística e a missão de todo escritor: criar uma lente de aumento do real;
5) Usar a imaginação e procurar justificar absolutamente "tudo" na imagem, por mais absurda que pareça sua composição, tornando cada cena convencional e ordinária. Atenção: uma vez que o absurdo, o dramático, o espetacular se encontra na imagem, e a finalidade é tornar "normal" a cena, deve-se evitar descrições na mesma direção. Ou seja, animais não devem ser descritos como criaturas falantes nem metamorfoseadas, por exemplo, nem "monstros" deverão ser descritos como monstros fabulísticos, a não ser como metáfora e similares.

Exemplo:

(Fonte da Imagem, misteriosdomundo.org)        


Minha tia-avó Gertrudes dizia que sua irmã, Albumina, era fascinada pelo pedestal da foto, a peça preferida na mobília da casa. Nada mais ao redor parecia-lhe combinar com a peça, com seus pés altos e curvos, sua brancura impecável, suas filigranas entalhadas. Escolheu um canto de uma sala, onde imaginou ofender a peça como traste escorado num canto. Nada que lhe pusesse em cima mantinha seu esplendor; ao contrário, ofendia ainda mais o que de nada necessitava para completar suas feições. Foi mudando o pedestal de lugar, retirando cada móvel em redor, até que permaneceu único no centro da sala. Desconsolada com a ação do tempo sobre a peça, a senhora Albumina quis enfim perpetuar seu móvel, e chamou um fotógrafo para registrar o que desejava ser o último suspiro de felicidade dela na vida ao lado de sua querida peça. Insatisfeita com cada fotógrafo, Tia Albumina acusava todos de não retratar a brancura esplendorosa de seu pedestal como a coisa mais contrastante do ambiente. Enfim, entrou na casa de minha tia-avó, dizia Tia Gertrudes, um pintor-retratista que viu na peça uma obra de arte. Após diversas tentativas de registrar a fotografia perfeita, o homem sugeriu que a própria presença de minha tia ao lado do pedestal "ofendia" seu tom divino. Ela aceitou ser vestida com a velha mortalha branca da mãe, e assim entrar para a eternidade de pós-mortos dos dois, pedestal e ela. Para assumir o papel definitivo de futuros falecidos que entrariam para a história, o retratista pintou minha tia-avó com todo pó de arroz que podia. Enfiou-lhe dois chumaços longos de algodão nos ouvidos, à guisa de marcos angelicais, e espalhou cartas aos vivos pelo chão, juntamente com o restante do pó, de que deveria levantar nuvem com o bater do pé, enquanto fotografava. A solidão de minha tia-avó na foto, porém ofendeu o fotógrafo, que resolveu criar uma cena de casamento entre a terra e o céu, tendo o pedestal como liame. Absolutamente não se agradou do esposo de minha tia, o tom de sua pele, o rosado de suas bochechas, o exagero de carnes, até que decidiu com a modelo fotografá-la ao lado de um anjo nu de carnes e cores, alvo como a pureza do móvel e de minha tia Albumina. Meteram um esqueleto alugado na composição, segurando um velho trombone que faria a vez de trompa de anjo. O excesso de branco, entretanto, perdia o pedestal no mundo de brancura da foto. Veio as meias de minha tia e o gato sobre o móvel, que insinuaram a relação entre luz e sombras, mistério e revelação, o conflito e diálogo entre céu e inferno, no meio do qual o pedestal elevava seus elementos para a própria salvação!

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