quarta-feira, 31 de maio de 2017

Método: palavra-valise de poema de Mauro Mota

A palavra-valise (do inglês portmanteau, ou ainda mot-valise) é uma combinação de sílabas de palavras que formam uma nova. A junção pode se dar por justaposição ou aglutinação. Podem ser com palavras antônimas, de sentidos diferentes ou por alguma associação complementar. Aqui, refazemos o poema de Mauro Mota com a técnica.

O Guarda-Chuva
(Mauro Mota)

Meses e meses recolhida e murcha,
sai de casa, liberta-se da estufa,
a flor guardada (o guarda-chuva). Agora,
cresce na mão pluvial, cresce. Na rua,
sustento o caule de uma grande rosa
negra, que se abre sobre mim na chuva.

O guardarrasco-chussolístico

Mes(s)es e mes(s)es recolhidada e murchaga,
sainasce da cascasa, na libidade da estrufa,
a florca guardágua (o guardarrasco). Agorado,
cresnece na mãovada  pluviscosidade, cresnece. Na ruambeira,
sustremo o cãole de uma gran(a)de rousadia
négora, que se á(r)b(o)re sobr(oçom)e na chuvasilha.

domingo, 28 de maio de 2017

O Ateliê de Arte e Literatura Potencial

Há muitos anos, como escritor e poeta com guardados (muitos guardados) na gaveta, e um texto publicado em uma antologia literária (de somenos, tudo isso), tenho estabelecido uma relação com a cultura verbal e não-verbal, que vê a inspiração nos próprios mecanismos dessa cultura, e encontra não nela, mas neles, os subtextos que procuro reordenar em formas definidas e familiares.

Uma vez que a velha discussão entre forma e conteúdo parece estar apaziguada em favor da ideia que gera a forma, sigo, juntamente com outros marginais da literatura, inspirados neles e nos ossos do Sistema, a gerar formas a partir da inspiração, ou a gerar inspiração a partir delas. Que sejam os jornais, a leitura de mundo, as enciclopédias e as notícias virtuais (a verdade virtual e os referentes holográficos) as fontes de inspiração de muitos artistas. As minhas são tudo isso e toda a parafernália e engrenagens que realizam a máquina de aforismos do Sistema. A palavra viva, a palavra morta, a sílaba e as onomatopeias, os sistemas da moda, as arbitrariedades linguísticas e os grandes/pequenos discursos. 
A pergunta da criança que vira o playmobil do sujeito que escreve.  Precipícios de lençóis e foguetes de palitos de fósforos que viram os estrangeirismos e a palavras-valise do escritor.

É sabido exaustivamente que arte existe para dialogar com seu leitor, provocar reflexões, analisar criticamente as epistemes e doxas, compreender de que são feitos os alicerces éticos, morais, filosóficos e estéticos do Sistema. Que a arte existe para discutir seus próprios pressupostos "artísticos", as razões de sua existência e suas ambivalências, é uma quase obviedade recente, que mantém entretanto o poeta e o escritor numa zona de desconforto, eliminando o antigo gênio e senso visionário de suas costas. Concordo com tudo isso. Pouco se disse até agora, entretanto, sobre o fato de que esse diálogo requer uma profunda compreensão, ou tentativa de entendimento de cada um desses discursos. E mais: que dialogar artisticamente com os sistemas, requer falar a linguagem dos sistemas, entrar em contato com eles, estranhar e reciclá-lo. O estranhamento da palavra do outro é um princípio da ideia que motiva ao texto.
Reproduzir uma homilia em um texto que se quer "artístico" torna a homilia um gênero emprestado pelo artista sobre o qual se pensa menos o Deus das Escrituras Sagradas, e sim a própria homilia, a verdade dos padres, a conduta dos paroquianos e a razão de existir da própria Igreja, quando em confronto com suas ações. A homilia deixa de ser a palavra de Deus e se torna a palavra do homem, ou pior: do artista. Da mesma forma, um poema cujo tema norteador é uma receita de feijoada, como fez Vinícius, é uma receita ou um poema? É um "poema menor", dirão. Mas é um poema. Resta questionar se o fato de se rejeitar o feijão e o toucinho como categorias epistemológicas da Cultura suspende o poema como referente criativo que aponta aspectos existenciais do modus vivendi dessa cultura. Adiciono: o poema foi construído com todos os recursos que se permite reconhecer como poema, ainda que se vá além das rimas e da metrificação. Pensa-se artisticamente um modo de ser e de viver a partir da feijoada e da rede que se convida ao ócio como formas pré estabelecidas de vida. Parte-se da feijoada para a vida, ou da forma para o conteúdo, sem hierarquias.
Categorias e critérios de qualidade seguirão existindo, como um norteador da grande "Arte", e para separar o joio do trigo. Existe a lista que rotula os poetas estruturalistas, os da "arte pela arte", os dos torneios estilísticos, os que pensam os macacos azuis e que evitam o leitor. Penso que a Arte é um critério dos outros. Os escritores continuam escrevendo como sua crença pessoal, enquanto ouvem música, bebem uma garrafa de uísque ou praticam atividades reprováveis ou nobres diversas, quando a ideia para um novo texto lhes assalta. No mais, os leitores são projeções abstratas que o autor não pode adivinhar, didatizar para eles, criar notas de rodapé nem dirigir a fé e as opiniões deles sobre o que quer que escrevam. Escreve-se para si e para a multidão. Noves fora, resta o texto e o delírio do poeta e do escritor como o clichê mais barato de quem faz crer que cada verso é fruto de um surto sem a menor coerência. Não é.

Quando entrei em contato com a escrita do OuLiPo (Atelier de Literatura Potencial), foi uma surpresa de quem não imaginava outras pessoas com os mesmos dilemas. Quais? Que a forma pode vir antes do conteúdo, como motivador, ou como inspirador da ideia. Para maiores notícias sobre o Grupo criado há mais de 50 anos na França, por François Le Lionnais e por Raymond Queneau, sugiro algumas palavras apresentadas no site Literatortura. No mais, não se trata de justificar o pecado, mas de demonstrar ao público interessado, e estimular os poetas e escritores a conhecer de que matéria é feita as artes literárias: da palavra em agonia. 
O Ateliê de Arte e Literatura Potencial foi posto em prática por mim como grupo de estudos e criação literária entre estudantes de Letras nas dependências da Faculdade da Escada (FAESC), na cidade de Escada, Mata Sul de Pernambuco. Dialogamos durante um ano e meio sobre atividades com finalidades didáticas, mas que, com seu término, não arrefeceu meu desejo de unir escritores e poetas para juntos discutirem ideias e possibilidades de se escrever textos dessa ou daquela maneira. Não se trata de uma confraria de amigos que se autoelogiam, como consolo de sua pouca imaginação e covardia estilística. Nem de oficinas literárias para forjar autores sob a batuta de um veterano mentor. Não é minha intenção formar uma panelinha, com regras do senhor Rei e ângelos entoados antes e depois do jantar. Espaço de encontros sazonais onde primeiramente se come e se bebe (as bebidas alcoólicas, recomenda-se para depois das atividades), e onde se conta causos e depois se apresenta seus textos, explicando a receita da "feijoada literária" servida on the rocks. O AliPo quer, a exemplo do OuLiPo de Queneau e Perec, servir de inspiração, para que grandes obras surjam ou não dali, e o que vier será lucro. Dialoguemos.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Madeleine de l'Aubespine: L'on verra s'arrêter le mobile du monde

Madeleine de l'Aubespine (1546-1596), dame de Villeroy. Poeta e tradutora. Seus poemas foram publicados pela primeira vez por Roger Sorg, em 1926. Seu talento se mostra bastante original: pela vivacidade de sua imaginação, ela acede a uma cosmologia cósmica cuja aturdiante fantasia pressagia já a de Théophile de Viau. Lua Quadrada, peixes que voam, água seca, em alguns traços ela cria um universo do absurdo que desorienta e cativa.

Fonte: adaptado de biblisem.net.

O poema aqui encontrado é uma tradução de Adilson Guimarães Jardim, publicado em "10 Poetas Francesas", edição bilíngue, Editora Nordeste Cartonero, 2016, folheto, 48 páginas.

L'on verra s'arrêter le mobile du monde
Se verá suspender a máquina do mundo

L'on verra s'arrêter le mobile du monde
Les étoiles marcher parmi le firmament,
Saturne infortuné luire bénignement,
Jupiter commander dedans le creux de l'onde.

 Se verá suspender a máquina do mundo,
E as estrelas marcharem o firmamento,
Saturno, a seu revés, luzir no seu intento
Júpiter, monarca, reger do mar profundo.

L'on verra Mars paisible et la clarté féconde
Du Soleil s'obscurcir sans force et mouvement,
Vénus sans amitié, Stilbon sans changement,
Et la Lune en carré changer sa forme ronde,

Se verá Marte serenar, e o brilho intenso
Do Sol nublar sem força nem constância,
Vênus inimiga, Mercúrio sem mudanças,
E a Lua, disforme, com borda e contra-senso

Le feu sera pesant et légère la terre,
L'eau sera chaude et sèche et dans l'air qui l'enserre,
On verra les poissons voler et se nourrir,

Será pesada a chama e fraca a terra,
Seca será a água, e quente no ar que a encerra,
Peixes serão vistos, que voam e se nutrem,

Plutôt que mon amour, à vous seul destinée,
Se tourne en autre part, car pour vous je fus née,
Je ne vis que pour vous, pour vous je veux mourir.

Enquanto meu amor, a vós só por destino,
Converte o ser em outro, posto que infindo,
Por vós nasceu, por vós viveu antes que enlute.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Método: caça-palavras poético

Método que consiste em recolher palavras e expressões de páginas de qualquer material impresso, de qualquer categoria ficcional ou não-ficcional, em qualquer ordem, e formar um poema, emprestando novos significados ao material linguístico recolhido.
Aproveitou-se aqui das páginas arrancadas aleatoriamente de exemplar da revista Viagem, costuradas umas às outras, cujo título e versos buscam sua própria coerência interna. Naturalmente, o jogo consiste em uma espécie de arqueologia linguística, com resultados aparentemente imprevisíveis, mas à medida que o autor escolhe as palavras, ele busca a unidade. No mais, sem maiores explicações, o poema é uma construção de menos vale mais, sem maiores justificativas ao leitor além dele mesmo.



A VIAGEM MAIS IMPORTANTE

O melhor de uma viagem
                              que vai
                                       até
                                        você

      O roteiro:
      o ponto de partida
Esvaziando a mochila
                  que a visita comece

Do alto das muralhas o encontro
do rio com a antiga cidade
Railways
túneis
pontes
Entre a capela e as fontes
a história o antigo autor

Para sair da cidade
siga as cidades
Ao sul da terra desconhecida
                              lugar recente
O lendário
trilhas
                   a ida é parte de
                                  outro

Lagos
cânions,
picos nevados,
Ao desembarque
a viagem
Explorar o velho mundo
(senta, deita, estica)
               Melhor sabor
               a culinária
               da companhia

Mundo ideal:
o sal  os preços as filas
Os dias a bordo de botas
                       fiesta favorita
O tempo eventos corrida
A chuva inicia
(Santa Bárbara: o clima)

Desfiles de gente
As tralhas do armário
                       a vida
Vastidão Tudo
os mercados lembrancinhas
A hora para outras estações
o contrário do resto dos acontecimentos
Happy New Year!

Vale a pena outro ofício
a cadeira
a mesa
a cozinha
O ano passado - viagem
                          estações
                          a beleza na Gran Vía

Turista do embargo
movido não só pela ilha
                    (lado oposto da ilha)
Tempo de mudar para a língua
O pueblo é pessimista
orgulho de dizer
                "perigo"
                       "segurança"
                                "taxista"
                      (isso não está na mesa)
Incluídos
         matas
             teias
                galhos
                    surtos

A imagem dessa ilha
                   (o contrário)
para quem viaja com pouco
a praia é mais linda
maré baixa
A hospedagem perfeita: sozinho

Abraçar sua dúvida
Zanzibar privada
Selva demarcada trilha
                   Outras palavras:
                              abril
                              baleia
                              menina
Emoção de encontrar
destino para combinar
Babilônia cidade perfeitinha
O passaporte intocado além das pechinhas

Para lembrar Miraflores e turistas
com frases de amor (comilões)
Casa discreta - nome de cozinha:
                        grãos
                        entrada
                        chirimoya com chía
A mulher - origem da gastronomia

Sem pagar a vida
o tour próximo - tempo de estadia
Saída transfers
                       Exagero de categoria
Hotéis carro
         (os dias passam devagar:
         seis noites
         dez noites
         três noites)
Recém reaberta visita

4.747 roteiros
4 patos
100 porcos
20
      suspiro
            suspiro
O mais descolado boêmio
com poucos igredientes
canta antigo cardápio: América Latina

Túmulo fundador
entre Carrasco e Artigas
Um ar retrô paraíso amontoado
                                de sociologia

ar quinta
          pizza
                 farinha
                     tortuguita
os clientes no mesmo boteco
                     "pub" não - "fería"

Céu aberto
A viagem a calle ciclovias
A rua o primeiro olhar
Prédios grafites
         El beso de los invisibles
         tematiza a vida
A cultura la candelaria
as casinhas de meninas
xadrez de Bolívar
Catedral de llamas

Viajar os olhos em si
giro completo o tempo
passeio Guadalhorce
desejo medusa
Samotrácia
Psiquê no meio da tarde
Luz natural

Prodigy - saídas diárias
wish - saídas diárias
galés - wish
salinas
Catedral de Sal
            happy hour
            sem escalas

Esquina onipresente
pé ante pé
no entretanto
possibilidade
destino
acordo
preferência
A cidade:
bendición de movilidades

Passeio ao cemitério: água colorada
Deserto - Restaurado tempo
La Cumbre no fim da trilha
Boemia pré-colombiana
          ossos expostos da América Latina
Suvenir - ciudad parrilla

Cidade-casa
Varandas recatadas
Victoria Secrets - calcinhas furadas
Cidade de sacanagem
Maradona canonizado

Abrir os braços pedestres
(...)

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