terça-feira, 13 de junho de 2017

Técnica: Lipograma em "a"


Porque é um pouco difícil escrever um texto sem certo signo linguístico, um que é presente sobretudo no grupo de cinco/sete sons vindos dos refolhos de voz do Português e de extremo uso nos gogós e nos beiços. Desse modo, penso com meus botões: como posso dizer o que quero, se ele surge todo tempo? Como o evito? É possível suprimi-lo sem que o texto fique feio, sem estilo? Creio, se querem mesmo conhecer, que sim. E creio, sobretudo, que um recurso estilístico pode ser convertido em princípio, ponto de encontro de um conto, de um soneto ou de outro texto (e muitos escrevem deste jeito, sem que ninguém suspeite). Eu posso, porque eu gosto de escrever. Ponto? Nem mesmo. Explico-me.

Os críticos dificilmente sorriem com esses jogos letrísticos, beletrísticos, esquizoides, esquizofrênicos, debiloides (segundo eles). Todos têm o senso de serem meros "exercícios de estilo", sonsices de quem escreve com gosto (desgosto!) pelo simples exibicionismo. Que somente meninos burgueses preferem o texto, o enredo, os bon-mots, os chistes, os échecs, os rocs, esquecendo com nojinho o contexto, todos os pretextos de diegese, o mundo mesmo, com homens e mulheres, com sofrimentos e júbilos, com o que ocorre no outro hemisfério do fólio onde esses escritores escrevem com orgulho, frívolos e esnobes. Esquecem, desse modo, o próprio Leitor!!!!

Bom, eu, que me escuso (e corro e fujo) desses conflitos pouco higiênicos, escrevo como quem persegue o mundo, os homens e mulheres, o que é terno, o que é sofrível, o que é nojoso, bondoso e repulsivo, por meio justo do Verbo incompleto, dos orifícios, dos choques dos símbolos sem nome, porque sem voz, que, como bebês, como jovens, como idosos com insultos (oh trolls!), ninguém lhes rende preito. E por que o opróbrio, sempre que um escritor e quem produz versos resolve expor como foi feito seu texto, deste ou de outro jeito? O que é do estilo eleito pelo escritor? Por que mesmo deve ser proibido de ser seu ovo de colombo, seu jocker, o segredo e o heroi de seu texto?

É certo que o contexto e o mundo longe do universo linguístico é sempre o pretexto dos defensores dos contos, versos e todos os outros gêneros estéticos, que devem ser evidentes; e o rio onde correm motes, litotes, silepses, hipérboles, eufemismos e oxímoros esconde-se sob o sentimento, fonte perene, segredo de Pôncio de León, que converte o texto em mundo refletido no mundo, tronco, flor, esporos (e espinhos).

Desde os 60' os mestres do OuLiPo (http://oulipo.net/) querem produzir desse modo! Hervé Le Tellier exibe livros pro público com restrições que descreve; o que escreveu "Residence D'Hiver", idem; Georges Perec sempre o fez (e que Féres trouxe com "O Sumiço" "pour nous"); e Fournel escreve (inclusive de bike); o mestre de "Six Memos for the Next Millennium o fez! O "velho idílio dos genitores de Set" (LV), texto de nosso querido Bruxo do Cosme Velho, é um monte de signos sem verbos, conúbio entre texto e contexto! E nosso escritor recifense que produz um livro em 1973 com um cubo de motes que se pode ler em direções diferentes e, segundo ele, em hélice, repetiu nosso sonho e nosso destino de escritores proscritos. Lindos, todos eles! Porém, sempre houve esses textos e esses doidos eleitos!

De resto, somos escritores, produtores de versos (diversos), somos filhos dos textos, do Deus do universo que disse que é o Verbo, e no-lo legou! Indo e vindo, como pompom de felinos, sou gênio sem luz, e meu lúzio é o hidrocor preto e o esfuminho, e os sons distintivos do homem que diz: "Eu escrevo".

(Pelo menos eu tentei, Melpômene...)

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